PREFÁCIO A CAVALO, COM ARROZ E FRITAS
Coração a cavalo é o livro de estreia de Phelipe Fernandes de Oliveira, professor de Língua Portuguesa, pesquisador da obra do simbolista piauiense Jonas da Silva (ele não gosta de coisa fácil). Pai de dois filhos, amante. Poeta. Poeta que escreve desde a adolescência — quando todos somos poetas. Persistiu e chega maduro nesta estreia. Desnecessário gastar linhas para descrevê-lo quando o próprio o faz tão bem nos dois poemas de abertura:
sou um animal adversário
fabricado em doces tangerinas
envoltas na pele do cordeiro
mais reto, mais tenro, mais eterno,
mendigando amores alvacentos
E
não vejo no espelho uma face quando o olho
vejo um museu
carne de gente que nunca vi
A divisão tripartite deste Coração é reveladora. Numa primeira parte, temos o poeta da e na rua, atento aos seus sinais e, sobretudo, ao caos. Phelipe registra o caos carioca varrido para debaixo do tapete. E, ainda que encolhido no banco de trás do ônibus, ainda que cansado (são 11 da noite), o faz empaticamente, como em “Coletivo passageiro”, poema de fôlego, verdadeira pièce de résistance:
Há um cansaço geral certamente
Há um descaso geral certamente
Há uma certeza no coração do povo de que o mundo vai acabar
Há uma certeza no coração das trevas de que, se o mundo não acabar,
não faltarão navios a serem embarcados
para o éter
São 11 horas da noite
Há um cansaço geral certamente
As pessoas só retornam do trabalho para descansar do trabalho
e ressonar imaginando
um lance fora de tudo
A palavra viver tornou-se higiênica e, com ela,
pouco se coaduna
O registro do caos pede versos livres e chuvas oblíquas, mas observai que os dois poemas que encerram esta primeira parte são sonetos — indicativo do que está por vir.
Na segunda, e mais curta parte (eu a quisera mais longa, no mínimo tanto quanto as demais), Gonzaga meets Leminski, e há tanto carinho e amor por aqui. Bastava este verso, e o livro se pagava:
“eu te conheci primeiro teus cabelos”
Aliás, falar em carinhos nos traz uma questão interessante deste livro. Palavras como “perlustrado”, “umbra” e “olor” roçam ombros com diminutivos (uma marca), tais como “estrelinha”, “pedrinha”, “peixinhos”, “vestidinho”, “orelhinhas”. Roçam ombros e umbras amorosamente. Roçamzinho, como gostava de escrever Dalcídio Jurandir, que usava diminutivo até para os verbos.
Phelipe guardou para a terceira parte os sonetos. Ninguém aqui está falando em “evolução”, pelo amor de Deus. É apenas constatação da divisão do livro. By the way, se me pedissem para organizar até quarta-feira uma antologia de bonitos sonetos brasileiros, eu por certo incluiria um destes, porque verso como “vocação animal para o afeto” não poderia jamais ficar de fora.
Coração a cavalo me surpreendeu muito positivamente. Ficamos no aguardo de outros. Mas sem pressa, porque para isso já temos as tantas redes sociais. Ficamos na espera de outros, gestados no seu tempo de amor e empatia.