Leia aqui um poema de "a cintura do dia", de Paloma Automare:
as linhas da companhia de energia
que rabiscam o céu de todas as cidades
ou de todas as minhas cidades
elas sempre foram pauta para os meus olhos
e ainda que eu seja amiga das perspectivas
nunca gostei de folhas pautadas
e mesmo sendo melhor amiga dos riscos
do traço, do negrume
eu não gosto das linhas pretas da companhia de energia que cortam o meu olhar
as linhas da companhia de energia cortam o céu
o céu que se entremeia nas folhas
o céu que faz contorno para os meninos
o céu que toca o seu corpo
que espalha areia na casa
que seca as roupas
as linhas da companhia de energia cortam o céu
nos apartam das aves altas
das aeronaves
do rebanho das nuvens intangíveis
dos sputniks
dos deuses preguiçosos
a cintura do dia, de paloma automare
Paloma Automare é artista, produtora e editora de conteúdo. Nascida na cidade de São Paulo e formada em Língua e Literatura Russas, trabalha desde os anos 2000 em projetos voltados para formação e educação em museus e instituições do terceiro setor. Em 2016, muda-se para São Sebastião, litoral paulista, e participa da fundação dos coletivos Uma Canoa e Escambau Cultura. Atualmente, é sócia da Vazante Livros, biblioteca e espaço cultural dedicado ao estudo e pesquisa em arte, literatura e linguagem.


