Leia aqui um poema de "a festa da noite baldia", de Thales Alves:
Hipóteses de tudo
Ao sondar o som das distâncias
medidas em ermos
Compasso-gesto que se despe-despede
Pede
um instante
a mais.
Suplício restinho
Um beijo-golinho
Um pedaço-carinho
Uma canja
Um choro
Um bis...
Caminhos, indícios vagos
Um solzinho de depois da chuva
A primavera perto
Fraseado de meia estação
O peito todo tecido
Entardecido
– O corpo dela tinha cheiro de chuva-de-terra-molhada.
Existem várias horas do amanhecer
Cada um acorda num tempo
Mas madrugada mesmo
Aquela densidade noturna
da profundeza de espécie escura.
Sempre é só uma,
a mesma, para todos.
Um café um cigarro um poema
Um desejo constitutivo e basal
Quando, pela manhã, você me conta um sonho
Quando, ao anoitecer, você diz o boa noite final
Tem horas em que o amor é pra viagem.
Não pode comer aqui,
Tem que levar.
Quantos anos couberam na troca das bocas
Na mistura das vozes
num gemido diáfano
Etéreo
No avesso-espasmo-tempo
Contraído no encaixe-dansa[1]
Pernas e panos
macios-músculos
O coração espalhado pelo corpo
pelo carro
A tontura da pele
Na tortura salivante
Do olho por olho
Lágrima-baba-boca
Suor-hálito-corpo
[A queima roupa]
Alcoólico tato
Olhar etílico
O desejo que me põe
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