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Leia aqui um trecho de "a jornada de tony farkas", de R. G. Werther:

 

Flagro-me agora deixando minha casa, no bairro no qual nasci e fui criado por dezenove anos. Um fino aperto no peito e um nó travado na garganta são tudo o que consigo sentir agora, enquanto arrasto lentamente o pequeno portão enferrujado logo atrás de mim. E quando ouço o som metálico do trinco, quando fecho isso, sinto vontade de chorar, mas eu aguento.

 

Nem imagino quantas foram as vezes em que o atravessei, correndo, chegando da escola, ou simplesmente voltando da rua depois de brincar. Eu passava por ali, suado, eufórico, e me lembro de minha mãe pedindo para que eu fosse direto pro banho. Eu sempre dava um jeito de assistir um pouco de televisão antes, mas isso nunca durava muito.

 

Não sei por que tenho o pressentimento de que talvez esta seja a última vez que verei a minha casa; o telhado de cerâmica riscado de musgo, as pimenteiras quais meu pai tanto gostava de cuidar no minúsculo quintal, que agora está tomado pelo mato. Não vejo as tais pimentas há algum tempo, se é que elas ainda estão lá. Até o carrilhão de vento, pendurado encimado à porta da frente, já perdeu o seu brilho, fosco mesmo. Eu estava com a minha mãe quando ela o comprou numa loja exotérica, no centro da Taquara. Eu adorava as notinhas tintilando com a brisa da noite, embora, há muito, isso não me conforte agora tanto como antes fazia. E esse mato todo?

 

O mato excessivo não era por mero desleixo meu. Meu pai havia me instruído, há muito tempo, a deixar a casa com uma aparência abandonada, com a pintura feia e com a fachada descuidada, só para não chamar muita atenção dos milicianos, porque mesmo já tendo certo tempo que eles não aparecem em suas rondas aleatórias, eu não deveria me atrever a correr o risco. Na época, muito antes do golpe militar, meu pai sabia que tal ato violento iria acontecer num dado momento. Não é que ele tinha razão?

a jornada de tony farkas, de r. g. werther

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