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Leia aqui um trecho de "a menina do caderno amarelado", de Eliete Morais:

 

A primeira vez foi na escola.

 

Em um dia comum, desses que começam iguais a todos os outros, a professora Maria Ângela passou um exercício de conjugação de verbos. Cada aluno deveria ter um caderno exclusivo para aquilo.

 

Ela levou a tarefa a sério.

 

Passou a tarde inteira fazendo o exercício.

 

Escreveu com cuidado, linha por linha, tentando acertar em tudo. Queria impressionar. Queria ser vista. Queria, mesmo que por um instante, sentir que estava no lugar certo.

 

No dia da correção, foi confiante.

 

Sentou-se na carteira, esperando sua vez, com o coração acelerado entre esperança e medo.

 

As primeiras páginas passaram.

 

Nada foi dito.

 

Mas, já no meio do caderno, a professora parou.

 

Franziu a testa.

 

Levantou o olhar.

 

— O que é isso?

 

Ela sentiu o rosto queimar.

 

Olhou rapidamente para a página.

 

Faltava um acento.

 

— Falta um acento — respondeu, quase em sussurro.

 

A professora, então, pegou a caneta.

 

Com força.

 

Com raiva.

 

Fez o acento com tanta pressão que rasgou não apenas a página, mas as quatro seguintes.

 

O papel fino não resistiu.

 

As folhas se abriram como se estivessem sendo feridas.

 

E, em seguida, veio a sentença:

 

— Tá vendo? Traz um exercício lixo, num caderno lixo, com essa cara de choro. Saia daqui. Não corrijo mais nada nesse caderno.

 

A sala riu.

 

Alguns cochicharam.

 

Outros olharam.

 

Ela não disse nada.

 

Apenas voltou para a carteira.

 

Sentou-se.

 

E chorou em silêncio.

 

Naquele dia, a volta para casa foi longa.

 

Caminhou de cabeça baixa, segurando o caderno rasgado dentro do saco de açúcar onde levava o material. O lápis pequeno ainda estava ali, como sempre.

 

No caminho, pensava em uma única coisa:

 

como pedir outro caderno para a mãe, se mal havia o que comer?

 

Chegou em casa.

 

Não contou nada.

 

Sabia que a mãe não teria como comprar outro.

 

E sabia também que aquilo a deixaria triste.

 

Então decidiu fazer o que já tinha aprendido, mesmo sendo tão pequena:

 

dar um jeito.

 

Sentou-se.

 

Retirou as páginas rasgadas.

 

E começou tudo de novo.

 

No mesmo caderno.

 

Com o mesmo lápis.

 

Com o mesmo cuidado.

 

Hoje, quando lembra daquele dia, entende melhor.

 

Entende que aquela não foi só uma humilhação.

 

Foi também um aprendizado.

 

Porque, muitas vezes, a vida rasga as páginas.

 

Mas foi ali, naquele caderno amarelado, que ela começou a aprender a passar tudo a limpo.

a menina do caderno amarelado, de eliete morais

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  • Eliete Morais de Oliveira é escritora, poeta e professora. Nascida na periferia de Brasília, construiu sua trajetória por meio da educação e da palavra, transformando vivência em linguagem e memória em resistência. É graduada em História e Secretariado Executivo, com pós-graduação em Saúde Coletiva, Administração e Docência do Ensino Superior, e mestre em Saúde Digital e Telessaúde. Atua no Ministério da Saúde. Participa de coletâneas literárias, com destaque no Selo Off FLIP.

    A Menina do Caderno Amarelado é sua obra de estreia.

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