Leia aqui um poema de "a menor das astronaves", de Rafael Vilela:
supernova
, mas hoje eu flutuo
pelo espaço sideral
na menor das astronaves
não sei como vim parar aqui
mas sei que de todos os meus defeitos
ser eu mesmo era um dos mais graves
da vastidão do vácuo
eu conseguia ver tudo
asteróides inquietos
as manchas da Terra
talvez os anéis de Saturno?
meu coração pesava igual chumbo
porque de tudo que eu via
não conseguia identificar um futuro
seria mais conveniente
largar tudo que vejo à frente
pra recomeçar a vida
numa gigante gasosa?
eu passei horas ali
tentando por tudo
não ceder aos defeitos
enquanto encarava um cometa
lentamente penetrando
minha atmosfera sulfurosa
todos os cometas são passageiros?
será que nenhum algum dia se perguntou
e se eu ficasse?
conseguia ver minhas lágrimas
flutuando na gravidade zero
enquanto os soluços eram abafados
e eu abraçava pra manter bem perto
os joelhos do peito
na menor das astronaves
era tudo frio e lotado
as pessoas gritavam
mas ninguém se ouvia direito
eu me obriguei a respirar fundo
e me acalmar de qualquer jeito
talvez pra sempre fosse a minha sina
ser um homem enjaulado,
vivendo pra dentro
enclausurado no próprio pulsar?
a supernova agora dobrava a esquina
e eu me dei conta de que continuava na busca
de algum planeta em que eu pudesse pousar.
a menor das astronaves, de rafael vilela
Natural do Espírito Santo, Rafael é engenheiro civil por formação e um dedicado jogador de RPG nas horas vagas. Morou por nove anos em Florianópolis até se mudar para o interior de Minas Gerais, onde atua hoje como ferroviário. Recentemente adotou a Anya, uma gatinha que o julga com convicção e o ama apenas moderadamente. Tudo que ele sempre gostou tem a ver com arte: tocar piano, teatro musical e ficção científica. “A menor das astronaves” nasce, então, dessa fascinação com o vasto e é onde ele traz dez anos de tentativas de entender o mundo e encurtar um pouco essa distância entre o que sente e o que quer dizer.
