Leia aqui um trecho de "a mesma jugular", de José Lisboa:
Pensa em erguer o braço, o punho rijo perfurar as ondas, acenando até que lhe encontrem, imerso ali; você buscou em todos os pontos cardeais, não havia terra à vista, mas havia os semblantes antigos, os fantasmas amigos, e um assovio de ressaca no ar… As ondas translúcidas, o mar incolor mesclava-se ao tom cítrico do morango, rochas de gelo resfriaram o teor da bebida, manando-a menos grave. Diogo deitou os olhos ao coquetel, copo plástico genérico, um sumo cristalino de anestesia e desengano. Agarrou o canudo na ponta dos dedos, embaralhando os ingredientes uma vez mais, aqui e acolá, empurrou o gelo ao fundo e duelava contra o tédio.
— Sorria! — uma mão no ombro.
— De novo? — erguera o rosto.
— É bom te ver!
— Eu sei. Eu imagino — o caçula riu, bicando o coquetel.
— Dia sim, dia não…
— Um dia de cada vez.
— É, menos é mais!
Almir empurrou atrás os fios de cabelo enchendo sua testa – um vasto suspiro –, volveu à massa.
Diogo sentiu a gravata apertar o fôlego, enganchou o indicador na gola repuxando a fita grafite amarrada ao pescoço; comprimia os lábios sem saber o que pensar. E talvez, estagnado naqueles minutos, recapitulara a mente humana desde a diáspora africana – ou não; talvez a suposição fosse longe demais…
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