Leia aqui um trecho de "a noite em que o rio sussurrou meu nome", de D'Maria Oliveira:
Uma tarde, enquanto ajudava o velho Seu Francisco a recolher as redes de pesca, ela viu algo preocupante. Peixes pequenos saltavam fora d'água de forma desesperada, e a água perto de uma curva do rio tinha uma coloração oleosa e um cheiro estranho.
— Seu Francisco, olhe isso! — ela chamou, apontando.
O pescador experiente franziu a testa, preocupado.
— Isso não é bom, menina. Alguém não está respeitando o rio. Isso é trabalho de gente gananciosa.
A concha no peito de Júlia ficou gelada de repente, um frio que a fez estremecer. Era um aviso. Naquela noite, sem lua cheia, ela sentiu um impulso irresistível de ir até o píer. O céu estava encoberto, e o rio era uma mancha escura e silenciosa.
E então, ela ouviu. Não era uma voz, mas uma sensação, uma melodia triste que ecoava dentro dela, como um sussurro vindo das profundezas. Era uma sensação de angústia, de mal-estar. Era o rio. E ele estava sofrendo.
Júlia não conseguia dormir. A melodia de desespero do rio ecoava em seus sonhos. Ela sabia que tinha que fazer algo.
Na manhã seguinte, foi direto contar tudo à vovó Isabel.
A velha senhora ouviu atentamente, seu rosto sério.
— O rio fala com quem está disposto a ouvir — disse ela, finalmente. — E ele escolheu você, Júlia. O presente do Guardião não é apenas uma lembrança. É um laço. Ele te confiou a sensibilidade para escutar quando o rio está em perigo.
— Mas o que eu posso fazer? — perguntou Júlia, sentindo o peso da responsabilidade.
— Sozinha, nada — respondeu a avó. — Mas você não está sozinha. Você tem uma vila. E, suspeito, tem um amigo nas águas.
Júlia lembrou-se dos olhos profundos de Enzo. Ele tinha dito que sua responsabilidade era com o rio. Se o rio estava em perigo, ele estaria lá.
Ela teve uma ideia. Correu até a casa de Seu Francisco e contou o que sentira, mas disfarçou a história, dizendo que tinha sonhado com peixes doentes e água suja. O velho pescador, que respeitava os pressentimentos tanto quanto respeitava o rio, acreditou nela. Ele concordou em levá-la em seu barco naquela tarde para investigarem a curva do rio onde ela tinha visto a água oleosa.
