Leia aqui um trecho de "a sagração da matéria", de Sihan Felix:
Manuel Antônio saiu do mato arrastando os pés. Sentia o peso de cada légua nas juntas. O barro nos tornozelos já tinha secado, formando uma crosta cinza que repuxava os pelos da perna a cada passo. A terra ali exigia o seu tributo de cansaço. Manuel atravessava a densidade da Ilha, carregando no corpo o silêncio das pedras que pisara. Trazia na roupa aquele cheiro azedo de quem dormiu ao relento, uma mistura de suor frio com o sumo verde das plantas quebradas na travessia. Parou na orla, ofegante. O ar dali era diferente, era denso, carregado de uma maresia antiga, entrava pesado no pulmão e saía deixando um gosto de ferro e sal. Cuspiu no chão para limpar a boca e esperou o coração desacelerar, ouvindo o sangue bater nos ouvidos como um tambor abafado.
a sagração da matéria, de sihan felix
Sihan Felix é professor, escritor, compositor e crítico de cinema, nascido no Recife e radicado em Natal. É autor do livro Pensar-cinema: caminhos para uma experiência completa (Faccioli Editorial, 2025), membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE), ex-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte (ACCiRN), membro da União Brasileira de Compositores (UBC) e possui Mestrado em Teoria e Crítica da Arte pela Universidade do Porto (Portugal). Sua literatura — e sua maneira de pensar as artes — nasce daquilo que não pode ser apagado: a memória dos gestos, a persistência das perguntas, os murmúrios políticos das imagens e do silêncio. Para ele, que vive entre livros, filmes, quadros, partituras e questões, a literatura é sempre pulsante, uma arte que se compromete, que intervém no mundo, mesmo quando apenas sussurra.
