Leia aqui um trecho do livro "algumas portas só abrem por dentro", de Bruna Salles:
A casa
Às vezes, lavando a louça,
vendo a cidade pela janela do ônibus,
ou andando pelos mosaicos das calçadas,
eu ainda vejo nossos corpos no sofá,
pupilas me devorando encantadas,
me contando sujeiras descaradas:
"você é a mulher mais linda do mundo".
Ligo a televisão,
acendo o fogão,
espanto a poeira,
lembrando sempre do último outono
sem saber se foi ilusão ou brincadeira.
Fiquei com mãos que guardam o tato
do que não posso mais tocar,
mãos cheias desse nada,
uma matéria estranha e aguada
que não sei como guardar.
Não decora a casa, não serve de escada,
só me ocupa os braços,
em uma espera feita de azul e cansaço.
Sinto falta de ir para casa e balançar a cama,
ouvir uma voz dizer que me ama,
descobrir que mentiras também se banham na lama
e são capazes de andar,
abraçar, dançar,
forjar um paraíso de véspera
para então, como se partir fosse
tão fácil quanto chegar,
aprender a se retirar.
Daquilo que vivi, o melhor não ficou.
Não o peso dos corpos em movimento,
não o calor do abraço no meu rosto,
ou o encaixe da minha cabeça
na curva do pescoço.
Sobrou-me a arquitetura desse inverno:
quatro paredes feitas de silêncio maciço
e uma porta que só abre por dentro.
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