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Leia aqui um poema de "anacronismos", de Bob Soleto:

 

RECÉM-NASCER DENOVO

 

Abrir todos os olhos da mente

Sem pestanejar

Agarrar o sonho

Como a língua

lépida do sapo

Engole a mosca

Sem mastigar

Ser bebê

Não ter dentes

Mamar o leite

Do seio da Via Láctea

Notar cada nota

Do canto do pardal

Como se fosse

Um canto submerso

De um coral colorado

Cada piar uma estrela

Tremeluzindo

Na escuridão da consciência

Ouvir o canto dos pardais

Como se fosse música…

— É música!

A descoberta

de que cada casa

Desta rua é coberta

Por flautas

Às vezes doces

Às vezes amargas

Saber que nada me falta

Ficar sem teto

Perder o chão

Ganhar nada

Ouvir o toque do celular

Como se fosse música…

— É música!

A sua música favorita

Reduzida a um toque

Que não te toca mais

Uma chamada

Que uiva um choro

escandaloso e prematuro

Como a ambulância

Até a chegada

Do teu corpo moribundo

Na emergência

Nova da tua infância

Tudo emerge

E porque emerge

Desaparece.

Paciente, tenha paciência:

Tudo passa,

Passageiro da cósmica ambulância.

anacronismos, de bob soleto

R$ 50,00Preço
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  • Bob Soleto é um recifense que encontrou na poesia a tradução para o seu olhar contemplativo. Historiador de formação e professor da rede estadual na Paraíba, Bob traz em sua escrita a tensão entre o lirismo subjetivo e a realidade social que o cerca. Reside atualmente na cidade de Campina Grande, no bairro popular das Malvinas, onde também leciona.

    Sua trajetória é marcada pela diversidade de influências: da melancolia de Augusto dos Anjos à rebeldia da contracultura punk; da atitude que há no rap à riqueza da cultura popular do Cavalo Marinho e dos poetas dos Sertão do Pajeú. Diagnosticado tardiamente com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o autor utiliza o verso como ferramenta para renovar uma sensibilidade que a neurodivergência por vezes desafia, transformando a escrita em uma pesquisa contínua entre o "eu" e o mundo externo.

    Praticante do zen-budismo e pai devoto, Bob Soleto apresenta neste livro o resultado de anos de fronteira entre o silêncio e a palavra.

    Instagram: @bobsoletojr

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