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Leia aqui um trecho de "animal rudimentar", de Adilson Luiz Quevedo:

 

De longe é possível avistar o aglomerado de pequenos edifícios. Há tempo aquelas construções não recebem qualquer demão de tinta e as marcas de negrume e de bolor escorrem pelas paredes. Os dias nublados fornecem à paisagem uma atmosfera de abandono e sente-se um estremecimento lúgubre. Do bosque São Francisco, que circunda o bairro em uma das extremidades, surgem pássaros cobiçosos pelo aroma das cozinhas. As pessoas com a visão do bosque frondoso dobrado sobre duas colinas à frente do bairro — ora pontilhado por ipês amarelos, ora pelas vagens das sementeiras e, em dias de vento, pincelado pelas palmeiras — podem ainda vislumbrar o entardecer que declina atrás do arvoredo.

            Em uma das janelas mais altas do aglomerado — não pela altura do edifício, mas pela geografia acidentada da cidade — avista-se com frequência um sujeito de uns cinquenta anos que, quando sai de seu estado contemplativo, diz algumas palavras e faz gestos que não podem ser compreendidos da rua. O que mais se destaca não são seus falatórios ocasionais — pois é cada vez menos raro avistar pessoas confessando suas aventuras e desventuras aos ventos, aos pássaros e às nuvens que passam por suas residências. Chama atenção a cortina colocada na fachada externa do apartamento. Aquela cortina afixada de modo incongruente pelo lado de fora, rasgada e encardida, um curativo ainda preso em uma das extremidades, esvoaçante sobre um ferimento ou um passado desconhecido.

            O aposento contíguo à janela é mobiliado pela estante com uns duzentos livros, por uma máquina de escrever jamais usada, abandonada no assoalho, o armário que esconde um caos de papéis, a escrivaninha com um computador de mesa, cujo monitor de tubo ocupa boa parte do espaço, e uma impressora encardida. Nas paredes alguns desenhos ingênuos de próprio punho, o quadro de uma artista que ele apenas sabia se chamar Dan, deixado por uma amiga e que nunca voltou para resgatá-lo, e mapas remendados de viagens antigas. Após este cômodo, uma sala com o sofá-cama, uma cozinha de móveis alquebrados e um minúsculo banheiro.

            Ele passou a noite em claro embriagando-se pelas ruas. Havia saído de casa com o objetivo de tomar uma boa surra; de sentir dores no corpo para recuperar a sensação de estar vivo; ser levado a um hospital qualquer onde um enfermeiro rusguento e mal-educado se referisse a ele ao menos pelo número da cama.

animal rudimentar, de adilson luiz quevedo

R$ 45,00Preço
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