Leia aqui um trecho de "barracuda", de Henrique Kuczera:
Atrasado, atrasado de novo, nesta madrugada ambígua pra cacete. Só conseguia ficar lá, parado, congelado, com o vento desgraçado cortando minha alma através daquelas roupas finas e rasgadas que eu estava usando. Convenhamos, eu mesmo me coloquei naquela situação — como sempre fiz. Estava em uma rua qualquer do Centro da maravilhosa Curitiba, meu lar. Este que apodreceu e se tornou um ninho de ratos filhos da puta. Não tinha como este buraco se manter o mesmo, pequeno demais pros meus desígnios.
Mas lá estava eu, parado em frente a um bar de dois andares, com a janela do segundo andar quebrada no canto direito. Eu estava um caco, deprê que só. Perdido, fodido e deliberando sobre o que eu podia falar pra ela. Calma lá, ainda tenho alguns minutos, mesmo que atrasado, pois a mistura desconhecida de substâncias que eu experienciei hoje mais cedo — com uma finalização de pó e conhaque — começou a me trazer o azedo e gélido suor proveniente de sua passagem, junto com um terremoto interior que descia massacrando meu sistema nervoso central.
barracuda, de henrique kuczera
Henrique Kuczera Pereira (Curitiba, 1999) é um artista de percursos inacabados e sentidos plenos. Transitou pelos cursos de Pintura na EMBAP e Análise de Sistemas na PUC-PR, experiências que moldaram seu olhar plástico e sua lógica narrativa. Professor de inglês desde 2017, divide seus dias entre o ensino particular, a composição musical e a escrita. Em Barracuda, seu primeiro romance, ele utiliza sua vivência nas ruas de Curitiba para construir um retrato visceral de uma juventude que se consome e se reconstrói.


