Leia aqui um trecho de "carta - uma garota apaixonada", de Bright Snow:
No coração de uma clareira iluminada pelo sol, uma cerejeira erguia seus galhos como braços acolhedores, adornados com incontáveis flores rosadas que dançavam ao ritmo do vento. Ali, a tigresa encontrou o panda pela primeira vez. Ela havia escapado da rotina vibrante de sua turma, seus passos silenciosos e graciosos guiando-a até aquele refúgio inesperado.
O panda estava debaixo da cerejeira, recostado no tronco com uma expressão de pura serenidade. Ele segurava um pequeno livro entre as patas, mas parecia mais interessado no balé das pétalas que caíam ao seu redor. Seu porte robusto contrastava com a delicadeza de seu olhar, que refletia a luz suave do entardecer. Ele parecia imerso em um mundo próprio, um universo onde o tempo fluía devagar e a beleza das coisas simples era suficiente.
A tigresa hesitou. Havia algo no panda, uma calmaria quase hipnotizante. Era como se ele fosse uma extensão da árvore, estável e presente, enquanto ela era o vento, sempre em movimento. E foi essa dualidade que a fez se aproximar, pisando com cautela sobre as pétalas espalhadas pelo chão.
— Essa é a sua árvore? — perguntou ela, quebrando o silêncio. Sua voz saiu mais severa do que esperava, mas seus olhos brilhavam com curiosidade.
O panda ergueu a cabeça, surpreso, e abriu um sorriso tímido.
— Acho que a árvore é de quem souber apreciá-la. Gosta de sakuras?
A tigresa riu, sentando-se a alguns passos dele, ainda cautelosa, mas já encantada.
— É difícil não gostar. Não acha?
O panda assentiu.
— É mágico e efêmero. As flores duram tão pouco… Talvez seja por isso que são tão especiais.
A simplicidade da resposta dele fez a tigresa sorrir. A conversa começou pela cerejeira e suas flores, mas logo se abriu para assuntos maiores: sonhos, preferências, pequenas curiosidades. Ela preenchia o espaço com palavras e risos; ele ouvia com atenção, oferecendo comentários pontuais que a faziam rir ou, às vezes, pensar mais profundamente.
Sob a sakura, os dois pareciam pertencer a um universo próprio, onde as diferenças se harmonizavam como o contraste entre o rosa vibrante das flores e o céu azul ao fundo. O tempo passou sem pressa, e o vento trouxe consigo uma chuva de pétalas, que giravam em torno deles como um lembrete de que momentos como aquele eram raros e preciosos.
Quando o sol começou a se despedir, tingindo a clareira com tons dourados, a tigresa sentiu algo novo. Uma sensação de que aquele panda, tão diferente dela, tinha algo especial.
carta - uma garota apaixonada, de bright snow
Sou Gabriely C. Silva, licencianda em Matemática e atualmente atuo como professora nos anos iniciais do ensino fundamental. Entre números e palavras, encontrei na escrita um modo de traduzir sentimentos que nem sempre cabem em fórmulas.
Meu amor pela literatura nasceu do hábito da leitura e da curiosidade em entender o que move as pessoas, aquilo que faz o coração acelerar, o olhar mudar e as histórias ganharem vida. Foi essa curiosidade que me levou a criar Carta — Uma Garota Apaixonada, uma coletânea que fala sobre o amor, os ciclos e a paciência de quem aprende a se reconstruir.
Fui finalista do Prêmio Motus de Melhor Leitura Crítica e recebi menção honrosa no 39º Prêmio Yoshio Takemoto, com conto publicado na Edição 79 (julho de 2025) da coletânea do prêmio.
Assino como Bright Snow, nome que carrega o mesmo significado que encontro nas histórias que escrevo: a vontade de renascer com leveza, mesmo depois do frio.


