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Leia aqui um trecho de "cidade de bolhas e vãos", de Suzana Varjão:

 

Antes mesmo que consiga se desvencilhar do equipamento de proteção, Sandra recebe a notícia.

— A mulher morreu.

Interrompe os passos, lança o dispositivo de coleta de dados sobre a bancada e se atira em um dos assentos da sala de higienização. Não sabe exatamente o que sente. Misto de raiva, frustração, pena, desânimo, tristeza, medo...

A mulher é Maria dos Santos, 85 anos, cabelos grisalhos e olhos opacos. É também a centésima segunda pessoa misteriosamente morta em apenas sete dias na zona terrestre da cidade.

— Quer voltar, Sandra?

Olha para Cláudio, o incansável Cláudio, sempre disposto a ir fundo no trabalho de campo, retratar os sem face, desconstruir verdades montadas, confrontar burocracias perversas. Talvez porque, como ela, fosse oriundo daquelas paragens, onde mantinham memórias e afetos.

O impulso é dizer que sim, retornar à casa de Dona Maria, compensar o interrogatório pretensamente neutro do dia com um gesto mínimo de solidariedade e respeito; em lugar de abutres a serviço do sistema, se comportar como gente, saber da dor da perda, ou simplesmente calar-se diante dela.

Mas sente-se esgotada. Haviam passado o dia e parte da noite percorrendo as vias estreitas e sujas do território dos vãos visitando enfermos, fotografando, conversando com familiares e amigos das vítimas e colhendo depoimentos, como o de Maria dos Santos, agora, estatística macabra, fundamento para o pânico oficial e seus danos colaterais.

Além do mais, os acessos já devem estar fechados. Seria difícil obter autorização para transitar na região, a essa hora. Se em dias normais, e mesmo com permissão, era uma aventura entrar ou sair da parte baixa da cidade depois da meia-noite, em situações de emergência era por demais arriscado.

— Não adianta, Cláudio. Deixa pra amanhã.

cidade de bolhas e vãos, de suzana varjão

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  • SUZANA VARJÃO é uma jornalista, escritora e pesquisadora baiana com mais de 20 prêmios de reportagem pela atuação nas áreas de cultura e direitos humanos. Trabalhou como repórter, revisora, fotógrafa, colunista, articulista, editorialista, crítica cultural, ensaísta e editora de cultura, formando e coordenando equipes. Tem 11 livros publicados (entre solos e coletâneas), além de ensaios, vídeos, peças de teatro, contos, crônicas e artigos registrados em plataformas do Brasil e da América Latina.

    “Cidade de bolhas e vãos” é o primeiro romance da autora, que revela ter enveredado para a literatura ficcional pela vontade de escrever com mais liberdade, de trabalhar as letras esteticamente, exercitando o diálogo entre conteúdo e forma “sem as inevitáveis amarras da reportagem”.

    Mas diz que, tanto quanto o exercício do jornalismo, sua literatura busca “compreender o incompreensível: a marcha dos homens, seu flerte com o abismo”. 

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