Leia aqui um trecho de "coleção de breves eternidades: narrativas em desordem", de L. R. Lins:
A porta rangeu quando ele entrou, por isso a surpresa de Sofia. Ali, em frente, no umbral da porta, à contraluz pôde vislumbrar o corpo masculino compacto que impedia sua saída. Um homem de mais de 1,90, braços torneados e peludos, camisa aberta ao peito, exibindo uma corrente. Os olhos dele injetados de sangue brilhavam e, mesmo sem que tivesse proferido palavra, Sofia entendera a que viera.
Sempre havia sido preparada para situações assim. Sua mãe a ensinara a ser dócil, compreensiva, educada, benevolente, gentil, respeitosa, resignada, reverente, discreta, lhana, afável, recatada, cortês, delicada, complacente, obediente. Sua mãe a ensinara a não rir alto, não se sentar com as pernas abertas, não demonstrar afeto, não falar palavrões, não encarar as pessoas, não usar decotes, não usar minissaia, não retribuir a sorrisos, não discutir com homens, não reagir grosseiramente a cantadas, não sair sozinha, não sair de noite, não ficar sozinha, não falar alto, não beber muito em público.
Sua mãe lhe havia orientado para que, em casos assim, não resistisse, não gritasse, não se oferecesse, mas não apresentasse muita resistência, que se deixasse levar, que pensasse em outra coisa, que se distanciasse da situação real, que buscasse força em sua fé, que rezasse, pois o que importava era a vida e não a brevidade do momento.
Ele aproximou-se, olhos brilhando, sorriso deformando-lhe o rosto, faces vermelhas, sobrancelha arqueada, saliva nos cantos da boca, braços peludos dirigindo-se ao corpo de Sofia, que quase podia sentir a materialidade do hálito etílico. De pronto, Sofia sacou sua Glock 9mm e disparou-lhe dois tiros.
Sua mãe a ensinara muito. Seu pai apenas a ensinara a atirar.
coleção de breves eternidades: narrativas em desordem, de l. r. lins
Lins é escritor estreante. Em seu mestrado em Estudos de Linguagens na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul desenvolveu o trabalho intitulado "O narrador e a violência em Cuentos, Microcuentos y Anticuentos, de Mario Halley Mora".


