Leia aqui um trecho de "conto um conto por uns contos", de Gabriel Rosa Alves:
LOGOS
O asfalto azulado, recortado por janelas amarelas de luz, tremeu com a chegada do coletivo. Não havia mais ninguém no ponto. Ninguém a não ser uma jovem, que foi logo entrando no ônibus. Pagou a passagem com o bilhete de esforço mental e então levantou os olhos. Percorreu com o olhar, num instante, cada seção daquele transporte público. Dentro, outras três pessoas. Uma mulher que carregava consigo um livreto sobre a Abadia da Graça Infinita, um senhor que vestia um terno preto, e um jovem, que não tinha nada de particular em si mesmo. “Tem que ser esta mulher”, pensou e logo sentou-se ao seu lado.
“Eles não me passaram nenhum código. O que será que desenho? Como ela vai saber que sou eu?”. Lembrou-se que alguns membros do Logos foram identificados na abadia, e como se deve começar de algum lugar, partiu dali: Pegou seu tablet e desenhou um coração e uma mão estendida, o símbolo da Abadia da Graça.
E a senhora foi logo tirando uma porção de livros e desenhando histórias de perdão, graça e alegria. Todas as pessoas que desenhava tinham um sorriso no rosto. Desenhou, desenhou e desenhou, e então foi embora.
“Que decepção”, pensou. Então foi até o homem de preto, arrumou alguma desculpa sobre a ventilação e sentou ao seu lado. “Ele já deve ter percebido que sou eu. Afinal, um gramático deve ser mais inteligente do que a média, né?”. Mas o homem fingiu que não a viu, aguardou pela chegada de seu ponto e saltou.
A essa altura, o motorista já havia começado a ficar desconfiado. E ela, perdido toda a esperança. Foi quando o rapaz sentou-se ao seu lado. “Ele não tem cara de ser da máfia da palavra”, pensou. Mas, sutil e discretamente, o rapaz sussurrou-lhe uma palavra. Era mesmo uma palavra! Uma palavra nova!
― Esperança. Significa que há uma razão para confiar, para se alegrar. É aquilo que mantém a vida, mesmo diante da morte.
“Esperança, esperança, esperança… es-pe-ran-ça…”, repetia consigo mesma. E saltou do ônibus.
“Mantém a vida, mesmo diante da morte”.
conto um conto por uns contos, de gabriel rosa alves
Cristão, filho do Triângulo Mineiro, sonhador. Agraciado por pais que refletem a bondade de Deus, e noivo da noiva mais incrível que o mundo já viu. Começou a escrever profissionalmente aos dezesseis anos, para o blog “Acesso Geek”. Aos dezoito trabalhou como redator para o site “Clube Pop”. Desde então publicou na Revista “Subtextos” (2023), em coletâneas, como as organizadas pela Poliedro (2017), e pela Academia Saltense de Letras (2022), além de realizar publicações independentes através da plataforma da Amazon. Co-fundador e primeiro presidente do “SALEIRO - Coletivo de escritores cristãos”, e aluno do Invisible College. Graduado em Biomedicina, pós-graduado em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Apaixonado pela palavra. Peregrino.
