Leia aqui um trecho de "contos de uma mulher qualquer", de Ana Castro:
OLHA
Eu quero mostrar uma coisa a ele, mas ele não quer ver. Fecha os olhos, põe a mão na frente do rosto, vira a cabeça.
Por que você não quer ver o que eu preciso te mostrar?
Não quero. Não verei.
Não pode fazer isso por mim? Compartilhar comigo uma imagem? Nem precisa falar nada, nem comentar, nem fazer muxoxo.
Eu não quero.
Eu vou forçar suas pálpebras com meus dedos, e mesmo que você esteja cego, você vai olhar.
Mas eu não vou ver.
A imagem sombreada de uma mulher de meia idade, numa foto em preto e branco, com efeitos de luz difusa, olhando para a câmera e chorando com os olhos secos, já é de uma dor desmedida. Mas, essa mesma mulher, que além de tudo, ainda implora sem palavras que seja vista, aí já é nefasto. Eu sei disso. Mas insisto porque ser olhada é minha única maneira de existir.
