Leia aqui um poema de "do avesso e outras crônicas", de Tiêgo R. Alencar:
Desde muito pequeno, sempre fui obcecado por dicionários. Na primeira série, ganhei um dicionário da escola e foi um sonho realizado. Definições com imagens, verbetes detalhados, exemplos de uso... Eu não sossegava enquanto não colocava o dicionário no colo e começava a ler. Sim, a ler. Como se aquelas palavras soltas e explicadas me contassem a mais interessante das histórias. Mas, na verdade, o que mais me interessava ali era o sentido. Tudo fazia sentido. As palavras soltas, as letras soltas, as fotografias, a diagramação da página, a capa, a contracapa. Dicionários me ensinaram muito sobre sentidos.
E foi em meio a milhares de verbetes que eu descobri o sentido de “literalmente”: de modo literal, à letra; exatamente, expressamente, de forma total; absolutamente. Volta e meia era essa a expressão que eu lia nos livros. “Ele estava literalmente pisando em ovos” – e a personagem caminhava desastradamente em uma granja enquanto cuidava de galinhas; “ela era literalmente poliglota” – e a personagem falava cinco línguas além do português. E por aí vai a infinidade de usos adequados deste advérbio escorregadio e non grato.
As aulas de ciências aconteciam sempre nos primeiros horários de terça-feira. Àquela época, eu ainda estudava pela manhã e o fato de precisar acordar cedo ainda me era o fim do mundo. Mau humor, raiva, indignação. Tudo se centrava em minha cabeça enquanto eu sentava na primeira fileira à direita, esperando para me esforçar o mínimo e entender algo do que a professora diria.
Naquele dia, em especial, eu estava bem chateado. Eu só precisava de um empurrãozinho para estourar. E um pré-adolescente emburrado dificilmente seria compreendido por ter caído no banheiro antes de vir à aula e por ter derramado café na barra da calça jeans. Para completar, ainda tinha ciências. Eu precisaria de muita coragem para encarar aquela tormenta.
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