Leia aqui um trecho de "doce de cana", de Bárbara Vicente:
Foi com frustração que Inácia socou a lama cinzenta onde havia afundado os braços. Os respingos do lamaçal voaram em seu rosto, aumentando a irritação. Mal segurara entre os dedos o caranguejo rechonchudo em que estava de olho, perdeu-o com a mesma facilidade de quando o achara.
Pela altura do sol, a jovem sabia que passava das onze da manhã. Havia se levantado às quatro, quando as nuvens ainda estavam para definir uma coloração quente no céu. Nessa hora, a avó dormia, sob efeito das ervas calmantes que a neta comprava no centro da vila, ao lado da casa paroquial, misturadas com as cidreiras que vó e neta cultivavam no quintal. Só assim Inácia conseguia fazer o que tinha que ser feito, sem se preocupar com o estado da senhora que a tinha criado. Assim, sob o som da agitação dos coqueiros, no despertar do dia, Inácia acordava, estirando os pés sujos para fora do lençol remendado e fugindo da proteção do mosquiteiro, com o cuidado de não acordar Dona Antônia, que repousava ao seu lado, dividindo o espaço no colchão de espuma. A moça passava pela já gasta imagem da Nossa Senhora, colada à parede com um prego enferrujado, e, com um sopro, apagava a vela acesa na noite anterior.
Enquanto o sol se preparava para subir na linha do horizonte, Inácia já colocava a água para ferver o café. Na soleira da porta, há dias, a papa de aveia permanecia largada no prato fundo de barro, tocada apenas pelas moscas e formigas que ficavam à espreita. Era costume da avó deixar comida para a Comadre Florzinha, acreditando que a entidade, por ela conhecida nas histórias contadas em seu tempo de menina, passeava pelas matas que cercavam a ilha, protegendo-a das maldades e da ganância do homem. Para não perturbar a superstição, a neta deixava o prato no mesmo canto. Por cima do ombro, com a barriga colada na beira do fogão, ela observava o sono profundo da avó, assistindo ao seu abdômen subir e descer no tempo cronometrado, conforme a respiração embalava o descanso de uma existência cansada, atormentada pelo esquecimento.
O ronco alto e grosseiro da idosa, como de um animal sufocado, indicava a permanência da velha Antônia neste plano terrestre. Quando mais nova, Inácia, por acidente, na companhia do amigo Juca, se deparou com o barulho grotesco de um preá se afogando no meio das trincheiras do mangue. Naquele dia, as duas crianças se entreolharam, os pés afundados na lama escura, assustados com o desespero final do bicho. Não faziam ideia de como o preá havia ido parar tão longe e lá. Ali perto, o choque das ondas do mar nas pedras fazia um estrondo melódico que só os mais velhos sabiam decifrar. Os antigos pescadores então diziam ter aprendido com as mães sobre esse canto.
— “Ilha que canta”. Foi esse o nome dado pelos índios daqui, por causa da maré alta que jogava as ondas nas pedras e fazia um barulho abafado, como se fosse um coral de vozes. — Inácia ouvia a avó contar, debruçada sobre as linhas de costura.
“Deve ter se perdido”, pensou Inácia na época, virando o rosto para não encarar a angústia do animal. Queria calar a agonia dele, ir até lá para salvá-lo, mas não sabia nadar. Se não havia aprendido a se movimentar no meio das águas que cantavam no passar dos seus vinte e cinco anos, naquela época era que não imaginava se aventurar, quando o medo do mar, seu velho conhecido, silenciava a voz do instinto aventureiro da criança interior. “É até estranho uma coisa dessas”, a moça ouvia o povo da redondeza cochichar às suas costas. “Castigo de Deus não falha”. A mãe morrera no parto, ela não chegara a conhecer. Fora criada pela avó, já que o pai sumira no mundo, deixando a mulher prenha e falada na boca do povo, na ilha onde Inácia crescera sem chance de soltar-se das raízes do passado que a prendia.
Ao seu lado, diante da cena, Juca, com quem a menina dividia o percurso de ida e volta até a escola, ficou paralisado. Ao voltar a si, no instinto de irmão mais velho, agarrou a mão da amiga e a tirou rápido daquele lugar. Com as pernas atoladas até os joelhos, as crianças seguiram em silêncio pelo caminho sinuoso. Tempos depois, Inácia ainda lembraria a cena, a infância e os tempos de lucidez da avó, já que agora, por ironia, a corrida da neta de Dona Antônia era para agilizar suas tarefas, vislumbrando sofrimento que abatia a avó nos últimos anos.
Hoje, com os braços e pernas socados por inteiro no extenso lamaçal que cercava as veias das águas dos rios com o mar, Inácia fechava os olhos para aprofundar o tato, afundando as mãos para sentir. Queria buscar, mais uma vez, aquele caranguejo que lhe escapara. Queria sentir as pequenas patas agarrarem os seus dedos calejados, cavando mais fundo na lama densa. Queria poder levar o almoço para casa e, em seu íntimo, sentir a vitória eriçar a pele enquanto o gosto do pirão dançava em sua boca. Mas, depois de um tempo buscando, indo o mais fundo que podia, a moça se deu por vencida, disposta a aceitar a derrota diante da esperteza da natureza.
doce de cana, de bárbara vicente
Bárbara é uma leitora apaixonada pela literatura e suas expressões. Nesse caminho, é leitora crítica, professora “de português” e, vez ou outra, compartilha resenhas de suas leituras preferidas em seu perfil “bookstragmmer”. É pernambucana, natural de Recife e é entusiasta das boas histórias bem contadas. Sua estreia na literatura foi com a participação na coletânea de contos Pretérito Imperfeito, com o conto Hoje o pássaro cantou, publicado pela Sonho Editorial (2025). Desde sempre gosta de escrever sobre a vida ao seu redor, prestando atenção aos detalhes do cotidiano que o fazem especial com cultura, identidade e existência.


