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Leia aqui um trecho de "doce demais para mim", de Bel Bispo:

 

Espalmo o colchão, a matina tenta arrombar o quarto pelas frestas que a cortina vaza a cada sacolejo para lá e para cá. As hélices do ventilador que já precisa ser trocado há meses farfalham, o formato arredondado nas bordas no qual dissocio me leva a perceber que não faço ideia sobre quais números os ponteiros estão sobre o relógio.

 

Esbarro numa mão que não é a minha, sobressalto, surpreendido por você não ter ido assim que a embriaguez turvou a lucidez e me trancafiou numa caixa enegrecida, gélida e muda. Causava estranheza ser uma companhia apreciável por algum indivíduo no mundo, fiquei até preocupado com a sanidade do rapaz.

Alguém provavelmente tem interrogações vagando o raciocínio do como ou o porquê eu esbarraria em minha própria mão, aqui vai a resposta. Isso pode não fazer sentido agora, mas uma vez sonhei que descolava os cílios, novamente desperto. Havia uma silhueta deitada comigo, ela era meu perfeito reflexo, o visual idêntico. A suavidade no peso da alma de minha sombra ofuscava a de seu referencial original, eu. Nos primeiros minutos foi tremendamente assustador, depois do baque inicial assumi uma postura resignativa.

 

A personificação daquela dualidade complementar era superior a mim em mais aspectos e características do que posso me lembrar — ou fiz questão de esquecer. No decorrer daquela prisão mental houve um clímax da narrativa criada pela imaginação, minha outra face havia se apropriado da vida que eu costumava conduzir ao invés possuir o quão gostaria ou era necessário. E sinceramente? Não fui saqueado, ela lhe pertencia mais do que a mim mesmo, havia feito melhor do que eu jamais poderia fazer.

doce demais para mim, de bel bispo

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