Leia aqui um trecho de "haicais", de Alexandre F. Beluco:
É o número do meu apartamento. Cento e um. É o primeiro apartamento deste bloco e, naturalmente, é o apartamento procurado por todos que chegam aqui e não sabem exatamente aonde querem ir ou onde precisam ir ou com quem precisam falar. Entregadores de pizza, funcionários das companhias de energia elétrica e de suprimento de água, entregadores dos correios ou de qualquer coisa. Cansado disso tudo, já.
Dias atrás, um vizinho me disse que alguém veio entregar um telegrama e que era sobre minha mãe ter falecido. Mas quem ainda envia telegramas? “Talvez não tenham encontrado outro meio de fazer contato com você, porque está sempre fora.” Claro, eu trabalho e a empresa exige que eu esteja lá em pessoa durante mais de quarenta horas por semana. Enfim, essa era a mensagem.
Mas o telegrama era para mim — quem abriu? Quem o leu?
— Você está querendo saber demais — disse o vizinho enxerido.
Obrigado, de qualquer modo.
— Esteja em casa, da próxima vez.
Bem que gostaria de estar em casa mais vezes, por mais tempo. A rotina é bastante pesada. Saio pela manhã às seis e vinte, tendo acordado pelo menos quarenta minutos antes. Depois de quase uma hora e meia entre caminhada até a parada de ônibus, viagem até o metrô e caminhada ainda até o trabalho, entro na empresa às oito. Sigo por oito horas de trabalho com uma hora de intervalo. Saindo às cinco da tarde, levo cerca de duas horas para chegar em casa. E chego sempre extenuado. Me pego, depois do banho, olhando a tevê sem absorver nada do que aparece na tela e me sentindo vazio.
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