Leia aqui um trecho de "inventário das coisas que nunca tiveram nome contos", de Jefferson Nery Correia:
— Assopra devagar — ensinou, sem erguer os olhos. — Se for com pressa, a bolha estoura antes de nascer.
Mergulhei o arame no líquido e soprei. Uma bolha nasceu. Depois outra. E mais outra. Leves, translúcidas, furta-cor, flutuavam pelo ar da sala, atravessavam a janela grande e escapavam para o quintal, levadas pela brisa fresca da manhã.
O tio Francisco observava tudo. Às vezes, quando uma bolha se aproximava demais, levantava a mão devagar e soprava de leve, empurrando-a de volta para o mundo.
— Vai, menina… — dizia ele. — Ainda não é hora.
Havia algo em seu olhar que me inquietava. Um brilho antigo. Como se enxergasse não as bolhas, mas o tempo escorrendo dentro delas.
— Vejo um século passando — disse, enfim. — Vejo o que fui… e o que ainda me resta.
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