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Leia aqui um trecho de "inventário das coisas que nunca tiveram nome contos", de Jefferson Nery Correia:

 

— Assopra devagar — ensinou, sem erguer os olhos. — Se for com pressa, a bolha estoura antes de nascer.

Mergulhei o arame no líquido e soprei. Uma bolha nasceu. Depois outra. E mais outra. Leves, translúcidas, furta-cor, flutuavam pelo ar da sala, atravessavam a janela grande e escapavam para o quintal, levadas pela brisa fresca da manhã.

O tio Francisco observava tudo. Às vezes, quando uma bolha se aproximava demais, levantava a mão devagar e soprava de leve, empurrando-a de volta para o mundo.

— Vai, menina… — dizia ele. — Ainda não é hora.

Havia algo em seu olhar que me inquietava. Um brilho antigo. Como se enxergasse não as bolhas, mas o tempo escorrendo dentro delas.

— Vejo um século passando — disse, enfim. — Vejo o que fui… e o que ainda me resta.

inventário das coisas que nunca tiveram nome, de jefferson nery correia

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  • Jefferson Nery Correia é escritor, poeta, professor e pesquisador. Casado e pai de dois filhos, nasceu em Campo Mourão (PR), em 1978, cidade onde reside. Seu interesse pela literatura surgiu na infância, ao descobrir na biblioteca familiar obras de autores do século XIX. Inspirado por Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo, iniciou sua trajetória na leitura e na escrita. Durante os anos escolares, escreveu seus primeiros poemas e aprofundou o contato com a literatura brasileira e portuguesa. Em 1993, conquistou o primeiro lugar em um concurso de declamação de poesias na Feira Cultural de seu colégio, apresentando o poema “Meus Oito Anos”, de Casimiro de Abreu. Na adolescência, encontrou na literatura uma forma de expressão. Influenciado por Ferreira Gullar, Gabriel García Márquez e Manoel de Barros, desenvolveu uma escrita marcada por temas sociais e existenciais. Em 1994, venceu um concurso municipal de poesias com o poema “Brasis”. Graduado pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), participou da criação do grupo de teatro universitário TUCCA. Durante a pandemia de COVID-19, retomou a escrita poética. Em 2025, teve a obra “Rosas de Guerras” selecionada no XXI Varal de Poesias da UNESPAR, tornou-se membro da Associação Mourãoense de Escritores (AME) e publicou seu primeiro livro, As Mulheres que Eu Vi: poesia de flor e de força. Atualmente é mestrando do PPGSeD/UNESPAR.

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