Leia aqui um poema de "inventário (o que ficou sob a pele)", de Paula Coelho:
dia das mães
É na infância que a marca se imprime —
silenciosa, mas profunda.
Ali, o reflexo é sutil, o espelho ainda sem rachaduras.
A vida sussurra sem pressa: vocês são uma só.
Com o tempo, as semelhanças criam raízes e brotam — às vezes tarde, às vezes sem aviso.
Mas só são notadas quando a inocência já se foi. E o que fica são os restos, de todas as versões do que ainda pulsa.
Não se alcança o outro sem antes entrar em si.
É preciso escavar versões soterradas, recolher os cacos, fazer as pazes com as camadas que ainda pedem colo.
Com as versões que escondemos no escuro.
Com o que foi herdado sem escolha.
Mãe. Filha.
Duas presenças que se espelham, mesmo nos vazios.
Duas vozes que aprenderam a se calar do mesmo jeito.
Mas também: duas sementes que germinaram. Duas danças que, mesmo distintas, seguem o mesmo compasso.
Anteontem, crianças. Ontem, mãe e filha. Hoje, semelhantes.
E amanhã? Talvez ruptura. Talvez repetição. Talvez seja só mais um nome pra mesma dor com outra voz.
Mas sempre — o mesmo solo.
A mesma história tentando ser outra.
