Leia aqui um trecho de "já não restam cinzas", de Mateus Sousa:
Ainda cedo, o corpo se levanta, sentando-se na beirada da cama desarrumada. A mente, no entanto, fica ali, alvoroçada sobre dois travesseiros amassados e de fronhas puídas. Parte de si coopera, entendendo que deveria despertar para algo que o faria sentir alguma dignidade de novo, mas outro punhado de Bem não quer contribuir. Sua consciência tem de se dividir em duas, flutuando pelo ar para acompanhar o homem que firma seus pés no chinelo gasto, enquanto outra parte fica no quarto escuro aguardando seu retorno na noite seguinte, prometendo mais inquietação que a anterior. Eu, o sentimento-sem-nome-nem-cor, sou velho conhecido de Bem.
Quando se ergue, não quer pensar. O corpo já conhece a rotina, então que o faça. Caminha através da cortina de miçangas empoeiradas e sai do quarto, dando de cara para um pequeno e estreito corredor, enfeitado por fotos antigas penduradas na parede, à direita uma porta de madeira gasta insinua a entrada do banheiro. Se detém em frente a uma pia encardida e lava o rosto, curvando-se e alcançando a água gelada. Em pé, estica a coluna sem secar a face, e mira um espelho sem bordas, grudado na parede por pedaços de fita dupla-face, que é exatamente o que vê.
Duas faces, uma molhada e uma seca.
Uma não sorri, a outra também não.
A direita é real, e no entanto a esquerda não tem nada de falsa.
São duas caras no espelho.
Uma olha para o passado. A outra para o futuro.
já não restam cinzas, de mateus sousa
Mateus Sousa é um autor preto e LGBTIQIANP+ natural de Valença do Piauí - PI, que há nove anos constrói sua trajetória no sul do Brasil. Como autor estreante, busca trazer para suas obras a riqueza da diversidade, abordando temas que dialogam com identidade, pertencimento e as múltiplas formas de existir no mundo. Educador social e apaixonado por narrativas desde cedo, encontrou na literatura, no teatro e no cinema formas de explorar e dar voz às histórias que o cercam. Também é autor do microconto “A Barriga no Peitoral” (2025) publicado pela Editora Persona. Sua escrita é um convite para novas perspectivas, carregando a potência de quem sempre sonhou fazer da arte um espaço de resistência e criação, mesmo diante das complexas realidades do mundo.


