Leia aqui um trecho de "laços em nós", de Cris Branco:
Dona Ana entrou no quarto sem bater na porta. Como de costume, sua cara estava fechada e seu olhar carregava a mesma frieza que impregnava o silêncio da casa. Seus passos duros ecoavam pelo chão e denunciavam sua presença antes mesmo que pudesse dizer alguma palavra. Ia culpando o mundo inteiro pela vida medíocre que levava, mas sequer percebia que a infelicidade era o resultado das suas próprias escolhas.
Os dias se passavam num lamento vicioso e cada tropeço era visto como mais um golpe de um destino injusto e cruel. Não tinha sonhos, nem esperanças. Apenas vivia como alguém que se deixasse derrotar ao menor sopro do vento, carregando consigo o peso de mais um dia sofrido e impiedosamente arrastado, ainda que o sol penetrasse pela janela e trouxesse a beleza incontestável de uma manhã azul.
Dava para ouvir nitidamente seus chinelos nervosos se arrastando pelas escadas e atravessando o corredor estreito, dando pistas de que um furacão estava se aproximando. Dava para ver seus olhos lançando faíscas de fúria, vomitando o ódio, cuspindo o desprazer, enquanto ia tropeçando nas próprias maldições que escorriam pelo canto da boca. As paredes tremiam ao vê-la bater as portas com força, como se quisesse expulsar o ar do próprio ambiente. O coração batia forte querendo escapar do corpo, mas era o orgulho ferido que queimava em seu peito.
