Leia aqui um trecho de "lágrimas de sangue", de Bruno Carlos Soares:
Não houve explosão. Não houve grito. O fim começou em silêncio.
Começou no olhar vazio de quem deveria amar. No desprezo velado de uma família que não compreendia, não escutava e não queria entender. Começou nas palavras duras ditas com naturalidade: “Você é um peso. Você não tem jeito.” Começou nos cantos escuros onde ele se escondia para chorar, porque até o choro era proibido.
O fim começou quando ele ainda era menino — e já se sentia um erro ambulante. Quando começou a se perguntar se o problema estava no mundo ou dentro dele. Quando seus gestos delicados, suas palavras suaves e sua sensibilidade passaram a ser motivos de zombaria. Começou quando chamaram ele de “bichinha”, “esmoler”, “retardado”. Quando disseram que ele era louco — e ele acreditou.
A dor se instalou devagar. Primeiro como um incômodo. Depois como um peso. Por fim, como uma sentença.
Foi aí que os remédios entraram. Primeiro uma pílula para “acalmar”, depois outra para “dormir”, em seguida uma injeção para “parar com os surtos”. Mas ninguém via que o maior surto era viver num mundo que não permitia sentir. Ele não era doente — era apenas ferido. E ninguém tratou suas feridas. Só o doparam.
O começo do fim foi o dia em que ele parou de se reconhecer no espelho. O brilho nos olhos foi substituído por um olhar opaco, apagado. Os sonhos foram sendo enterrados, um a um, sem velório, sem despedida.
O menino que só queria ser amado virou o homem que carregava um laudo. O ser humano virou um número, um paciente, um caso perdido. E quando se é considerado um erro pela sociedade, pelo sistema e pela própria família — o fim se torna só uma questão de tempo.
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