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Leia aqui um trecho de "meu pequeno tabuleiro", de Paulu Ross:

 

Meu Pequeno Tabuleiro

 

Há lugares que a gente visita, e há lugares que a gente pertence. Tabuleiro não é ponto no mapa: é ponto de partida de lembrança. Quem chega vê uma cidade; quem nasce ali vê um mundo. Porque as ruas, mesmo quietas, contam histórias; as janelas, mesmo fechadas, espiam a vida; e o vento, quando passa, parece chamar cada morador pelo nome.

Tabuleiro é dessas terras que não fazem barulho para existir. Ela prefere sussurrar. Sussurra nas folhas das árvores, no ranger das porteiras, no riso das varandas e no passo lento de quem não tem pressa de chegar. Aqui, o tempo não corre: ele proseia.

Quem pisa nesse chão logo entende que cidade pequena não é a que tem pouco, é a que guarda muito. Muito afeto, muita memória, muito caso contado e recontado até virar lenda de esquina. E se alguém perguntar o tamanho de Tabuleiro, eu respondo sem medir:

— Cabe na palma da mão…, mas não cabe no peito.

Porque Tabuleiro, veja bem, não se visita.

Tabuleiro se sente. Lugar onde o mundo começou para mim sem alarde, sem pressa e sem pedir licença. Foi ali que nasci, cresci, estudei e aprendi as primeiras lições que não estavam nos cadernos: o valor de um cumprimento, o peso de uma palavra e a importância de um sorriso dado na hora certa.

Há histórias daquele chão que não ouso contar, não por falta de memória, mas por excesso de prudência. Se eu revelasse tudo, correria o risco de não poder mais pisar nas mesmas ruas sem ouvir risadinhas nas janelas ou cochichos atrás das portas. Cidade pequena tem disso: guarda segredos melhor que cofre e espalha novidade mais rápido que vento em roupa no varal.

Pequena no tamanho, gigante nas lembranças. Quem vê de fora imagina um punhado de casas quietas, mas quem vive sabe: ali mora um universo inteiro. Cada esquina tem uma lembrança encostada, cada calçada tem marca de infância, cada porta já ouviu uma despedida e uma promessa.

O povo? Ah, o povo… gente de coração largo, desses que cabem visita inesperada, café forte e conversa comprida. Gente que ri com os olhos e ajuda sem anúncio. Não é só bondade, é vocação.

E há um orgulho silencioso que corre pelas veias da cidade: dali saíram mãos talentosas, pioneiras das tesouras, artistas dos cabelos, que levaram seu ofício para todos os cantos do Brasil e até para além-mar. Como sementes levadas pelo vento, brotaram salões, estilos e sonhos em terras distantes, mas todos carregando na raiz o mesmo solo simples de onde vieram.

Dizem que a cidade cabe na mão de um anãozinho. Talvez caiba mesmo… se for medida em metros. Mas se for medida em histórias, não cabe nem no horizonte.

Porque lugar pequeno é só aquele que não sabe sonhar.

E Tabuleiro, minha pequena, imensa Tabuleiro, sempre sonhou grande.

meu pequeno tabuleiro, de paulu ross

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  • Paulu Ross nasceu em Tabuleiro, Zona da Mata Mineira lugar onde aprendeu que cidade pequena não é limite, é raiz. Filho de seu João e dona Helena, cresceu entre ruas tranquilas, histórias de varanda e a simplicidade que mais tarde se transformaria em matéria-prima para sua escrita. Marido apaixonado por Rosani, Paulu carrega no amor conjugal uma de suas maiores inspirações literárias. A vivência afetiva, a fé e a memória da infância moldaram seu olhar sensível e poético sobre a vida e sobre as pessoas. Na juventude mudou-se para o litoral paulista, onde ampliou horizontes sem jamais abandonar as origens. Formou-se em Teologia, aprofundando sua compreensão espiritual e religiosa , descobriu também a arte de embelezar pessoas, profissionalizando-se como hair designer , ofício que une técnica, estética e sensibilidade humana. Autor de livros de romance, poemas e crônicas, Paulu Ross escreve com lirismo, humor e um toque de ironia afetuosa. Sua obra transita entre a memória e a imaginação, entre a fé e o cotidiano, sempre com a convicção de que as melhores histórias nascem das coisas simples. Em Meu Pequeno Tabuleiro, o autor retorna às próprias raízes para eternizar, em palavras, o lugar onde tudo começou

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