Leia aqui um poema de "o corpo que a seca dança", de Alyne Castro:
Anatomia da Jurema
Dizem que meu corpo é de barro,
mas sou feita de espera e poeira estelar
Minha pele aprendeu com a seca:
é casca, endurecida
para manter a doçura dentro
Minha avó não caminhava,
ela plantava passos
Tinha raízes nos calcanhares
e, quando rezava,
não olhava para o céu,
olhava para o chão,
porque sabia que Deus
também mora nas raízes
Eu danço com a falta
Se a água não vem da nuvem,
eu a invento no suor.
Se o amor não vem do homem,
eu o teço no bastidor
Sou dual:
a que seca e estala ao meio dia,
e a que, de noite, em segredo,
floresce branca e fria
o corpo que a seca dança, de alyne castro
Alyne Castro é escritora, designer, podcaster, mãe do Gael e investigadora da alma humana através da Psicologia, compreende a escrita como um ato de tecedura e o acesso ao saber como um direito universal. Autora de Onirismo (2023), ela faz da sua literatura um ponto de encontro entre a ancestralidade e o futuro. Nasceu entre as histórias e as cores do Ceará e acredita que a vida, tal como a sua poesia, é um movimento constante de construção e descoberta.
