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Leia aqui um trecho de "o grito das pequenas coisas", de Elton Danana:

 

A MOEDA

 

Desculpe-me chamar a atenção de vocês para uma coisa tão pequena, mas é que perdi uma moeda durante o café da manhã aqui nesta padaria, onde venho tomar café todos os domingos.

 

Não é uma moeda qualquer, é uma moeda especial. ​Mas, pensando bem, o que faz uma moeda especial? Isso é coisa humana. Inventar títulos para destacar alguém ou alguma coisa.

 

O fato de ela ser do ano de 1994, de primeira cunhagem do plano Real, a coloca nesse lugar de destaque. Além disso, é minha moeda da sorte. Ajuda a não faltar dinheiro na carteira, mesmo em tempos de Pix.

 

Pois bem, a questão é que ela está perdida. E se você fosse uma moeda, onde se esconderia numa hora dessas? Estaria em alguma fresta do assoalho ou no estofado das cadeiras?

 

Talvez rolasse e ficasse deitada num canto, observando calcinhas coloridas e solados desgastados de gente de nariz empinado que passa nos ignorando? ​Não. Não é simples assim. As moedas especiais não costumam ser ignoradas.

 

Em pleno domingo de manhã, enquanto faço essas perguntas, após notar sua falta no zíper da carteira, procuro numa padaria quase vazia de clientes, enquanto os funcionários preparam o salão para o almoço, eu permaneço procurando minha peça especial. Mas se eu fosse uma moeda, onde me esconderia?

 

“Achei!”, gritou o garçom, Seu Faustino, um senhor de bigode ralo que já me conhecia, e que varria embaixo de uma mesa.

 

— O senhor perdeu alguma coisa? — ele perguntou, já se abaixando.

Ele tateou afastando um pouco a mesa perto do caixa, e se levantou com um providente sorriso.

 

— Era esta?

 

— Não sei, deixe eu conferir. Sim, lá estava a cunhagem do ano de 1994, ano da perda de Ayrton Senna, do Tetra e o nascimento da minha moeda sorte.

Agradeci, peguei a moeda, limpei uma sujeira de farelo de pão com um guardanapo, e dei uma nota de dez reais ao Seu Faustino pela gentileza — um valor desproporcional, já que aquela primeira moeda de aço inox nem é mais aceita. Ele agradeceu, achando estranho o meu alívio por algo de valor tão irrisório.

 

Guardei minha moeda especial no bolso. E talvez ela fosse especial não por ser de 1994 ou por dar sorte, mas por ser uma das poucas coisas capazes de me fazer parar, num domingo de manhã, e olhar atenciosamente para o chão.

o grito das pequenas coisas, de elton danana

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  • Elton Danana (da Nana) nasceu em São Paulo, mas radicou-se no Ceará ainda na infância, sendo criado em Aranaú, no interior do estado pelos avós paternos. Ainda na adolescência, muda-se para Fortaleza, onde passa a viver. Escreve desde os 16 anos, mas somente em 2014 publicou pela primeira vez, quando participou de Retratos de Abismo e outros voos, antologia de jovens poetas cearenses.

    Autor dos livros “Vila sem Muros” (2015) e “Enquanto Quaravam os Lençóis” (2019); é membro da jovem Academia de Letras do Brasil, Secção Ceará. Em 2025, lançou a obra de poemas “Ilha Contra o Mar”, durante a Bienal Internacional do Livro no Ceará. É militante social em eventos de periferia como o Sarau “O Corpo Sem Órgãos”. 

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