Leia aqui um trecho de "o preço da esperança", de Adriano Batista:
O Fio da Memória
"Uma das coisas que mais inspira as pessoas são as histórias de outras pessoas." A frase, dita por Nelson Mandela, ressoou em mim como uma verdade inquestionável. Com o tempo, essa percepção me abriu para narrativas inspiradoras e transformadoras. Passei a nutrir um profundo encanto pelas jornadas alheias, por suas lutas e conquistas.
Atento a essas histórias, floresceu uma curiosidade mais íntima em mim: a de entender a trajetória dos meus próprios ancestrais. Como viveram? Quais desafios enfrentaram nas encruzilhadas do tempo?
No dia 1º de novembro de 2025, em visita a meus pais na comunidade rural de Capivara, em Pentecoste, um desejo imperioso tomou conta do meu coração: o de mergulhar no passado de meus avós maternos, Raimundo Vicente e Luiza Batista.
Deitado em uma rede, pedi à minha mãe — Socorro, uma mulher de mais de setenta anos, cuja lembrança, frágil como um pergaminho antigo, exigia delicadeza para ser lida — que se sentasse ao meu lado e me contasse a saga deles.
— Meu filho, ando tão esquecida... será que ainda me recordo? — sussurrou ela, a voz embargada pela idade. — Minha memória fica pior a cada dia.
— É exatamente por isso, minha mãe — respondi. — Desejo aproveitar este momento para resgatar essa história antes que ela se perca no esquecimento.
Alguns pontos ela já não recordava; outros, ela própria nunca compreendeu a fundo. Mas o conhecimento histórico e minha pesquisa me permitiram reconstituir a história por inteiro.
E o que se revela nas páginas seguintes não é apenas uma biografia, mas sim uma épica travessia. Esta é a história de um amor que desafiou a seca do sertão, sobreviveu à fúria da floresta amazônica e, em meio a perdas implacáveis, encontraram uma inabalável razão para a esperança.
Eu me acomodei melhor na rede, e minha mãe sentou-se em uma cadeira próxima. O silêncio da noite rural foi quebrado apenas pelo farfalhar dos galhos das árvores ao redor e pela voz serena de minha mãe, que fechou os olhos para buscar as imagens no fundo da memória e começou a contar:
o preço da esperança, de adriano batista
Adriano Batista é psicanalista clínico, especialista em Psicologia Organizacional e bacharel em Zootecnia pela UFC, com uma trajetória consolidada no desenvolvimento humano e social à frente de instituições como ADEL, SEDUC e CENTEC. Nascido e criado no sertão nordestino, traz no olhar a beleza e a dureza da caatinga — contrastes que moldaram sua escuta para as narrativas de vida e o inspiraram a fundar o Espaço Lavore, um refúgio de acolhimento onde o cuidado cria raízes e a vida floresce. Se na prática clínica Adriano se realiza ao desvendar as histórias alheias, foi na ligação profunda com seus avós, Luiza e Raimundo Vicente, que encontrou o chamado para investigar a própria ancestralidade. Ao unir o rigor da psicanálise ao afeto de neto, ele resgata o "fio da memória" narrado por sua mãe, Socorro, para organizar este tributo visceral à resiliência e à dignidade daqueles que o precederam.


