Leia aqui um trecho de "o quintal", de Raquel de Medeiros:
O mundo da menininha era seu quintal.
Lá pra frente o acharia pequeno, mas por enquanto era a ilha de Robson Crusoé a ser explorada.
Passeava todos os dias indo e vindo várias vezes por baixo dos pés de goiaba, de pitanga e de ameixa, caçando o que fazer e descobrir.
E quando vinham as frutas...
Goiaba não comia que tinha bicho, a mãe falou. Só dava pra doce.
Pitanga depois eu falo, que é capítulo especial da menininha.
Ameixa, às vezes comia pra o pé não ficar enciumado, mas não gostava, só fingia.
Em um ano ou outro saboreava, de dois pequenos pés preguiçosos, as estranhas carambolas e limonada caseira de limão-galego (um nome que adorava dizer).
Quem a via dizia que tinha dó, que era sozinha.
Gente grande não entende e não enxerga a grandeza e a riqueza de um quintal (um quintal de verdade, é claro!). Não vê quanta gente habita este universo. Gente pequena, gente invisível, “gente” animal, vegetal... e até “gente” mineral, pois que ouvira uma vez seu pai lendo nas Escrituras Sagradas que se ninguém quiser falar de Deus para as pessoas que precisam dele, Deus dá um jeito. Na falta de “gente humana”, ele faz pedra falar.
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