Leia aqui um poema de "o sangue dos gigantes", de Leonardo Cardoso:
Lua de nanquim
Me olhava todas as noites
Estática e perfeita
Mirava
O eclodir dos meus soluços
O cão velho trotear na madrugada
O vento acotovelando a janela
O escorrer das paredes
Os outros universos enquadrados
[Cativos da própria diegese]
Os livros que rotacionam pelo quarto
Os que se cobrem de poeira
As mãos e bocas que beijam o falo
Os amigos que ali bebiam
O mosquito que zunia
A cartela vazia
O cabide quebrado
O beck apagado
A solidão desconvidada
A cadeira que precisa de óleo
O monitor obsoleto
A xícara de chá frio sobre a escrivaninha
O bic sem fluido embaixo da cama
O espelho com marcas de dedo
O amanhecer que violenta a persiana
As cobertas bagunçadas
A porta entreaberta
A luminária de antiquário
[Com a luz em meia fase]
E a lua, imortalizada em pigmentos,
Dali não pode fazer muito
Pois os satélites
Não foram feitos para folhas de papel
o sangue dos gigantes, de leonardo cardoso
Leonardo Cardoso nasceu em Canela, na serra gaúcha, e hoje vive em Porto Alegre. Produtor editorial, fotógrafo, poeta e antropólogo amador, formou-se em Jornalismo pela PUCRS e atua na Isto Edições, onde acompanha de perto o nascimento de livros de poesia. Leitor voraz desde a infância, encontrou na escrita um espaço de expressão que, aos poucos, deixou de ser escolha para se tornar necessidade. O sangue dos gigantes é seu primeiro livro.
