Leia aqui um trecho de "onde a palavra respira - poemas do quase", de Eric Oliveira Costa e Silva:
Bilhete ao Leitor: “Respirações de Referência”.
Caro leitor,
Se este livro começa no silêncio,
termina em respirações.De João Cabral, fica o corte —
a crença de que o poema se constrói retirando.De Manoel de Barros, a dignidade do erro.
O tropeço como método. A ruína como forma.De Celan, o silêncio como estrutura interior — não o avesso da palavra, mas onde ela ancora.
De Mallarmé, a página como campo.
O branco diz. O que não foi impresso faz parte do que foi.De Blanchot, a recusa do fechamento.
De Jabès, a pergunta: onde está o livro dentro do livro?
No intervalo. No que o leitor trouxe e o verso não pediu, mas recebeu.De Ana Cristina Cesar, a subjetividade sem moldura — o eu encostado na carne do verso, marcado sem assinatura.
De Augusto e Haroldo de Campos, o rigor, a matéria, o espaço. Mas o fragmento, neste livro, não é escolha formal. É condição.
O sujeito que escreve aqui não tem nome nos poemas.
Tem postura. Acorda antes do mundo. Espera sem garantia.
Não é confissão. É ofício.O que você leu não busca unidade.
Busca o que permanece depois do fôlego —
o silêncio que ficou no lugar da palavra, ainda aquecido.Em respirações.
onde a palavra respira - poemas do quase, de eric oliveira costa e silva
Eric Oliveira Costa e Silva não escolheu apenas uma linguagem — escolheu o espaço preciso entre elas.
Jornalista formado pela Unitoledo, geógrafo e doutor em Ciências Cartográficas pela UNESP, sua escrita atravessa memória, cartografia, corpo e silêncio, encontrando no fragmento uma forma singular de permanência.
Integra o Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras e foi um dos 50 selecionados no II Prêmio Literário Canon de Poesia, com textos publicados no Brasil e em Portugal.
Em Onde a Palavra Respira — poemas do quase —, o quase não é falta. É a única forma possível de dizer.