Leia aqui um trecho de "onde a palavra respira - poemas do quase", de Eric Oliveira Costa e Silva:
Bilhete ao Leitor: “Respirações de Referência”.
Caro leitor, Se este livro começa no silêncio, termina em respirações.
De João Cabral, fica o corte — a crença de que o poema se constrói retirando.
De Manoel de Barros, a dignidade do erro. O tropeço como método. A ruína como forma.
De Celan, o silêncio como estrutura interior — não o avesso da palavra, mas onde ela ancora.
De Mallarmé, a página como campo. O branco diz. O que não foi impresso faz parte do que foi.
De Blanchot, a recusa do fechamento.
De Jabès, a pergunta: onde está o livro dentro do livro? No intervalo. No que o leitor trouxe e o verso não pediu, mas recebeu.
De Ana Cristina Cesar, a subjetividade sem moldura — o eu encostado na carne do verso, marcado sem assinatura.
De Augusto e Haroldo de Campos, o rigor, a matéria, o espaço. Mas o fragmento, neste livro, não é escolha formal. É condição.
O sujeito que escreve aqui não tem nome nos poemas. Tem postura. Acorda antes do mundo. Espera sem garantia. Não é confissão. É ofício.
O que você leu não busca unidade. Busca o que permanece depois do fôlego — o silêncio que ficou no lugar da palavra, ainda aquecido.
Em respirações.
