Leia aqui um trecho de "para sempre até que o fogo nos consuma", de Bibiane Ferreira:
Rosas decompostas
Como explicar a alguém o cheiro das rosas no fim da primavera? Como descrever uma cor para quem nunca a viu? Como narrar os cheiros e as cores daquele verão para quem nunca o viveu?
Ela costumava sentar-se no banco de madeira marrom em frente às roseiras e observar as rosas vermelhas desabrochando ao sol no verde do parque. Ela dava boas-vindas aos tímidos botões espreguiçando-se para fora de si, e apreciava a coragem dos pequenos. Abaixo do banco, as pedras eram sujas de terra. Seu filho sentava-se na grama e cheirava o ar de rosas decompostas. Ninguém mais ia naquele jardim descuidado. Os ramos caídos do bico dos pássaros se amontoavam no chão, misturando-se às folhas das árvores que, mesmo em maioria, não causavam tão boa impressão, porque eram leves e fáceis de sobreviver. A tinta do banco descascava, e também a da parede, e a da mureta. As rosas tinham de aguentar o peso de existir em um jardim rodeado por destruição.
O sol forte aquecia suas pernas fracas e frias, e ela gostaria que o sol a bronzeasse: estava farta de sua pele naquele tom amarelo, sem ser branca, sem ser morena. Estava farta de como se parecia.
As rosas se desmanchavam à sua frente. A visão dos espinhos salientes suaviza a sensação de seus espinhos internos. Insetos pretos corriam sobre pétalas e devoravam. Ela segurava o caule da roseira repleto de espinhos e apertava. A criança se deitava no chão, e rolava. O mato crescia entre as pedras. Suas mãos já estavam acostumadas com os riscos das flores bonitas, por vezes cactos, geralmente rosas e principalmente as vermelhas. Agarrada ao sustento da rosa, ela sangrava flor. Ela podia contar os insetos famintos, os ramos no cabelo do filho, ou as plantas do jardim, mas não conseguia distinguir seus ferimentos. Sua mão era formada por riscos finos e delicados que se misturavam e formavam linhas grossas e violentas. Seu corpo, sem entender, insistia em cicatrizar, e a casca coçava e ela arranhava e o sangue fluía.
O perfume das rosas sempre em sintonia com o odor da decomposição. O menino, sujo de terra, matava a curiosidade se arrastando debaixo da babosa. Espinhosa, sim, mas jamais o suficiente. Ele não conhecia bem o exterior e se limitava à segurança dos pisos, dos tetos e dos interiores; e se assustava com as estátuas do jardim e os latidos dos cachorros. Ele não sabia que água parada era suja e que as rosas eram perigosas, não sabia que não devia tentar pegar as abelhas e nem comer coisas do chão.
Ela sorria ao vê-lo esfregar o rostinho da grama, sem se importar em ter que limpá-lo para dormir. Ela só queria vê-lo viver, em silêncio, e deixá-lo brincar, deixá-lo ir. Ela o via se aproximar da planta rasteira e venenosa. Ela podia gritar bem alto e bem forte, podia assustá-lo e fazê-lo chorar. Podia sussurrar em seu ouvido que ele era um menino mau e ordenar que ficasse quieto. Podia empurrá-lo na direção oposta ou puxá-lo para trás, ou podia arrastá-lo pelas britas até em casa. Mas ela quebrava o caule das rosas e suas mãos doíam e ela não podia segurá-lo e não podia aninhá-lo. Ela permanecia sentada no banco naquele fim de tarde enquanto seu filho morria. Ela esfregava os pés na grama e afundava os dedos na terra. As veias escorrendo das fendas abertas de seus pulsos uniam-se ao sangue dos espinhos das mãos, sua visão já ficava turva pela fraqueza.
Os olhinhos inocentes do menino piscaram para ela antes de partir.
para sempre até que o fogo nos consuma, de bibiane ferreira
Bibiane Ferreira é natural de Vacaria, mestre em Letras e Cultura pela UCS e tecnóloga em Escrita Criativa pela PUC-RS. A autora, que possui foco na produção e pesquisa de literatura curta de horror, já foi premiada em concursos literários independentes, apresentou trabalhos em diversos eventos acadêmicos e tem textos publicados em dezenas de antologias, entre eles, contos, poemas e artigos. No campo das artes cênicas, Bibiane atuou profissionalmente em diversas peças de teatro, clipes musicais e curtas-metragens, apresentou-se em espetáculos de dança, produziu eventos, dirigiu espetáculos artísticos, ministrou oficinas e participou de podcasts. Para sempre até que o fogo nos consuma é sua primeira publicação individual.


