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Leia aqui um poema de "poemas", de Fernando L'amounier:
 

Epígrafe do Brasil (2018)

 

Cidadão brasileiro

apunhalado pela faca

que veio com a arca

da descoberta portuguesa

 

Recolho seus prantos

de ódio a si mesmo

torno-os em cantos

de poeta a esmo

 

Ao Brasil de todos

eu recito e repito

a canção de poucos

em tempo inóspito

 

O gume da faca

explorou o Brasil

viajou na barca

de juízo vil

 

Brasil tão bello

que morto está

achado tão vivo

e morto ficará

 

País que é rico, mas ao pobre

prega a morte

de riqueza tem diversidade

e de valor, apenas o esporte

 

A pena de morte

não consta na constituição

mas todo dia é um passaporte

para o meio de execução

 

Entre esquerda e direita

desce o golpe da marreta

sem centro, mas no meio

tiro certeiro na testa preta

 

Aqui o armamento militar

é usado por bandidos

que são massacrados

por policiais vendidos

 

Nas esquinas das cidades

mendigos a faca amola

no pobre estômago

que pede esmola

 

Dentre os três poderes

nenhum forma a União

a união é dos políticos

que promovem a corrupção

 

As nossas fasces

são um grande importe

fantoches do sul

dos tiranos do norte

 

Seguindo os passos

da velha usura

ainda reféns

da ditadura

 

De artigos e leis

é o Brasil que reflito

mas com bitola dos direitos

não se salvará com o mito

 

O mito já estava escrito

na história e na cicatriz

a ressurgência é mais um rito

no ciclo do perdiz

 

E o mito foi perfurado

pela faca que cultivou

tornando-o mais forte

mais um mensageiro da morte

 

O valor é invertido

na cara do fascismo

e sem máscara

a face é do racismo

 

A cada ano

mais uma guerra

entre trabalhador

e dono de terra

 

A cada mês

chega a conta

para o novo burguês

que a faca aponta

 

A cada semana

uma notícia

atualiza o público

da realidade fictícia

 

A cada dia

um assassínio

tria em rumo

ao extermínio

 

A cada hora

decresce a vida

mulher estuprada

que engravida

 

A cada minuto

uma oração

dos descrentes

dessa nação

 

A cada segundo

o tempo passa

tornando a vida

mais escassa

 

A cada noite

mais estrelas no céu

Cruzeiro do Sul ao léu

sem nos guiar

 

Entre a vida e a morte

o brasileiro quer paz

com um Brasil tão vivo

morto prefere estar

 

Bellum sine bello

 

Brasil tão bello

que morto está

achado vivo

sem respirar

poemas, de fernando l'amounier

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  • Fernando L'amounier é professor, tradutor, poeta e produtor musical. Seu interesse em literatura começou cedo e se desenvolveu paralelamente às suas descobertas musicais. Os caminhos o levaram ao estudo das letras e, mais especificamente, à área da tradução, onde se especializou em textos literários e multimidiáticos. A partir de seus estudos em produção musical, associou suas produções de música eletrônica à textos multimídia, principalmente na aplicação da música eletroacústica e do processamento de sinais analógicos e digitais para traduzir poemas visuais e concretos. Formado em Tradução-Inglês pela Universidade de Brasília e Mestre em Estudos da Tradução pela mesma universidade, desenvolve pesquisa sobre escritas criativas, tradução de poesia e tradução intersemiótica. Sua produção poética tem influências modernistas e concretistas e tende a associar a verbalidade às diversas mídias e modos contemporâneos de expressão.

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