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Leia aqui um poema de "poemas para um mundo caduco", de F.H. Carvalho:

 

SEGREDOS DO UNIVERSO (A Ernesto)

 

Com ele reaprendi a olhar para o céu como quem procura um rosto amigo na festa de São João. Contou-me,  num fim de tarde, enquanto o sol se dissolvia no rio, que existe um tal de Éris, frio e acinzentado, perdido lá longe no sistema solar, quase o mais distante, carregando consigo Disnomia, como quem leva um segredo sombrio.

Disse também — leve, como quem fala de monstros e heróis — que os gigantes de gás são nojentos, que os de gelo são sujos e azulados, bolas de vidro esquecidas na areia da ampulheta do tempo e espaço

Enquanto eu mal lembrava que além de Netuno havia festa, ele falava do vermelho Makemake escondido no Cinturão de Kuiper, e de Haumea, essa maluquice que gira tão rápido que virou uma bola de rugby para um jogo no vazio.

E é sempre nesse instante miúdo, entre planetas anões e poeira de estrelas, que sua voz torna-se música mística, contando sobre o cosmos como quem entrega um segredo feito promessa de infância: só nosso.

E eu, traidor de confidências, venho aqui espalhar pelo mundo as intimidades que um menino me confia, sobre um universo que, no fundo, é todo dele, mas que ele imagina que a nenhum bilionário pertence.

Talvez, se eu contar assim, sussurrando, as estrelas não se importem, e o filho do Apartheid – brincando com seus foguetes feitos com diamantes de sangue alheio – deixe o universo em paz.

poemas para um mundo caduco, de f.h. carvalho

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