Leia aqui um trecho de "POV de uma sobrevivente poemas sobre sobreviver e viver com o trauma", de Carolina R. Rodrigues:
POV de uma sobrevivente
Fui flor sem chão, bicho sem ninho, criança de olhos grandes a aprender que o amor podia
bater,
Morder.
Calar.
Queimar.
O frio penetrava-me ossos. Porque os casacos eram sempre para depois. Porque os gritos
vinham primeiro.
Havia fome, mas era pior a fome de toque, de aconchego, de alguém que visse.
Ninguém via. Fingia não saber.
Fui moldada a silêncio. Ensinada a não precisar.
A necessidade era um castigo. A dor, uma invenção.
E os dedos que me tocavam cedo demais não vinham com nome nem com culpa — vinham com
a sombra das portas cerradas.
Chorava sozinha. Morria em pequenos pedaços sem que um sopro se perdesse.
Não havia colo, só o eco do “aguenta”.
O meu corpo aprendeu a sobreviver antes de aprender a crescer.
Aprendi a morrer por dentro A dissociar.
A não suplicar porque suplicar doía mais.
E mesmo assim, fiquei.
Não inteira Não ilesa.
Mas aqui.
Ainda aqui.25
Com todos os ossos tortos do amor que não recebi.
Com todas as palavras que me negaram a nascer.
Porque, mesmo sem ninguém me ter salvo,
eu escrevo.
e isso, por si só,
é sobrevivência.
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