Leia aqui um trecho de "POV de uma sobrevivente poemas sobre sobreviver e viver com o trauma", de Carolina R. Rodrigues:
POV de uma sobrevivente
Fui flor sem chão, bicho sem ninho, criança de olhos grandes a aprender que o amor podia bater, Morder. Calar. Queimar. O frio penetrava-me ossos. Porque os casacos eram sempre para depois. Porque os gritos vinham primeiro. Havia fome, mas era pior a fome de toque, de aconchego, de alguém que visse. Ninguém via. Fingia não saber. Fui moldada a silêncio. Ensinada a não precisar. A necessidade era um castigo. A dor, uma invenção. E os dedos que me tocavam cedo demais não vinham com nome nem com culpa — vinham com a sombra das portas cerradas. Chorava sozinha. Morria em pequenos pedaços sem que um sopro se perdesse. Não havia colo, só o eco do “aguenta”. O meu corpo aprendeu a sobreviver antes de aprender a crescer. Aprendi a morrer por dentro A dissociar. A não suplicar porque suplicar doía mais. E mesmo assim, fiquei. Não inteira Não ilesa. Mas aqui. Ainda aqui.
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Com todos os ossos tortos do amor que não recebi. Com todas as palavras que me negaram a nascer. Porque, mesmo sem ninguém me ter salvo, eu escrevo. e isso, por si só, é sobrevivência.
