Leia aqui um trecho de "retalhos (contos reunidos)", de Amanda Gerardel:
A CASA DO SOL NASCENTE
Em uma cidade qualquer existe uma casa, a Casa do sol nascente, àquela, que abriga os desesperançosos meninos que sucumbiram às escolas da vida.
Na Casa do sol nascente muitos se perderam. Ali, foi o cenário da ruína de diversas almas carentes. Garotos magros, miseráveis, sedentos por afeto, sucumbiram aos ensinamentos de molecotes viciados em ilicitudes das mais descabidas.
"A casa onde Deus não habita", era como eu costumava me referir àquele local. Lá, aos poucos, fui sucumbindo aos demônios de minha alma. Primeiro perdi o pouco que tinha.
Perdi contato com minha mãe, mulher trabalhadora, costurava mais de doze horas por dia para sustentar a mim e meus irmãos. Meu pai, a muito se perdera em outras casas, sendo consumido pelas jogatinas e bebidas.
Perdi as roupas do corpo, serviram de moeda de troca para o transe que me vicia até hoje.
O jeans Levi’s tão prontamente doado pelas amigas de minha mãe, deu lugar à mantas velhas e sujas de vômito, shorts rasgados e blusas que serviriam mais como pano de chão.
Perdi os dentes da boca, um a um foram me deixando, a medida que o tempo passava, na Casa, a cada cômodo em que eu me fundia, deitado sobre o lixo, os excrementos e animais mortos, eles iam se deteriorando, perdendo a força, até saltarem de minha boca ferida.
A Casa do sol nascente, cujo nome não compete com os muitos fantasmas que lá se escondem, não é uma casa comum; ela tem alma e sua alma se alimenta de sonhos, de amores e de esperança. Como um dementador, ao pôr os pés em sua soleira, um contrato é assinado, “deixe aqui tudo que mais ama e receba o alento momentâneo de viajar por entre torpes sensações sintéticas”.
Não me lembro de como cheguei lá, não me importo com quem lá conheci, só me lembro da leviana sensação de estar bem, quando o pó branco invadia minhas narinas, após isso a fome, o medo, a tristeza e vergonha me assolavam. Tentei por diversas vezes de lá sair, porém algo que ninguém te conta, escrito em letras minúsculas no rodapé deste contrato é, ninguém sai da Casa do sol nascente enquanto dia for dentro de si, a menos que a escuridão já tenha tomado conta, se ainda houver um raio de sol, da casa não sairá.
E se quiser saber onde ainda vivem as almas abandonadas por Deus, visite a Casa do sol nascente, pois até hoje, suas paredes de lamentos permanecem erguidas, e abaixo dela, se encontra meu corpo putrefato que há muito não resistiu.
retalhos (contos reunidos), de amanda gerardel
Nasci e me criei no interior de Minas Gerais, entre a sombra das árvores e o cheiro de café fresco. Desde muito nova, me encantei pela pequena coleção de livros que meu pai guardava em caixas empilhadas num quartinho dos fundos. Eu esperava que os adultos se distraíssem para correr até lá e vasculhar aquelas caixas cheias de histórias. O cheiro de papel antigo, o som das páginas virando, tudo aquilo me trazia um conforto que eu ainda não sabia nomear.
Com o tempo, veio a necessidade de colocar em palavras o que eu sentia. A escrita se tornou minha forma mais sincera de desabafo, o jeito de traduzir sentimentos que não cabiam em fala. Aprendi a vomitar emoções pelos dedos e a retratar o mundo através das personas que encontro no cotidiano.
Hoje, aos 31 anos, a literatura continua sendo minha companheira mais fiel, aquela que me salva, me revela e me mantém inteira.


