Leia aqui um trecho de "ruidosas águas de ontem", de Fernando Favaretto:
Há imagens que falam alto, algumas que gritam, outras que sussurram palavras de difícil compreensão. Mas todas dizem alguma coisa, e há as que o dizem antes mesmo de serem vistas, porque atiçam a imaginação, desafiam os desejos de enxergar para além de ver, tensionam nossa capacidade de criar cenas e cenários, despertam a vontade de determinar rumos para caminhos que não nos dizem respeito, mas que poderiam ser nossos porque se parecem com os que já trilhamos um dia, com os que não trilharemos jamais. Em toda imagem mora o ruído incessante de uma história que pede para ser contada, mesmo que já o tenha sido. E quando não o foi, mais a imagem inquieta e queima, se desfazendo em outras de si mesma, um pouco mais nossa à medida que a nomeamos e a damos um lugar no tempo, e uma razão no espaço, e uma moldura em nossas janelas abertas para o mistério.
E foi em função do mistério, não necessariamente da imagem, mas do contexto no qual ela foi citada, que Marino se interessou pela história de uma fotografia, pela história das pessoas que apareciam naquela fotografia, sobre indivíduos de quem ele não soube quase nada num primeiro momento, mas a respeito dos quais imaginou várias coisas, e principalmente, quis saber várias coisas. Não ter visto a fotografia antes de saber da existência dela e saber dessa existência da forma como soube, despertou em Marino uma vontade como poucas vezes sentira de investigar alguma coisa, de ir atrás de uma história. E mesmo que não fosse uma boa história, ele já estava a construindo ao seu modo, e isso por si só já estava sendo um deleite.
ruidosas águas de ontem, de fernando favaretto
Fernando Favaretto, natural de Sério (RS), é jornalista, professor e escritor. Formado em Letras e Jornalismo, possui Mestrado e Doutorado em Educação. Trabalhou como professor da rede pública estadual, atuou em cursos de educação a distância e atualmente exerce o cargo de diretor da UFRGS TV. Morando há mais de vinte anos em Porto Alegre, em suas histórias costuma abordar a relação entre o interior e a capital, refletindo sobre como transitar de um espaço ao outro contribui para a descoberta da identidade dos personagens e para seu processo de autoconhecimento. Publicou quatro romances: Sobre dores, amores e uma panela velha (2013), Ninguém me explicou na escola (2014), Entre a meia-noite e o fim do inverno (2015) e Sacadas, pra quê? (2023).


