Leia aqui um trecho de "sofistas paulistas", de David Schwartsman:
Timóteo, constrangido por ter caído na arapuca argumentativa do amigo: Eu já tive a primeira sessão hoje mais cedo, fique sabendo. E foi ótima. Foi uma conversa… difícil, mas muito interessante com o Seu Arandir. Ele… tem coisas para resolver, eu acho, mas ele é um cara legal. E eu sinceramente sinto que ajudei ele de alguma forma ou de outra. E o principal, é não deixar a filosofia morrer na sala de aula. Pior que a sala de aula, não deixar ela virar existencialismo. Temos que negar que exista uma continuidade entre a vivência e o real. Meus pacientes não vão poder ficar contentes com suas ilusões subjetivas. Vamos ter que romper com as ilusões… E cavar a verdade que tem por trás. É uma aposta na linguagem! E sobretudo é uma aposta que há um mundo por trás da linguagem! Qualquer outra coisa é uma covardia.
Kafta, com um sorriso misterioso: Bem… Se der certo, que bom. Vamos brindar então. Celebrar a inauguração!
Ele pede para a garçonete duas doses de cachaça de siriguela com cravo. A garçonete, mais preocupada com os pedidos incessantes da família aniversariante, se confunde e traz duas doses de cachaça de graviola, mas eles tomam mesmo assim. É o primeiro mês dela no emprego e está se provando mais difícil do que ela imaginou: o deslocamento envolvia trem, metrô e ônibus, todos em horário de pico. E seu chefe exigia que ela decorasse uma infinidade de sabores estapafúrdios de esfihas e pizzas, ao passo que a clientela era afeita a grandes explosões e performances emocionais como a família ao lado. Ela já teve de lidar com uma discussão futebolística durante um clássico, dois términos, e o pior de tudo, um reatamento de relação extremamente teatral, ao fim do qual uma janela e duas garrafas de cerveja saíram quebradas. Mas não tinha nem caído o primeiro salário, não podia já estar pensando em se demitir, podia? Tinha que se dar um tempo para essas coisas…
Kafta, brindando: “Cemitério, cadeia, cachaça não é feita para uma só pessoa”. Aos sofistas!
Timóteo: Ao Seu Arandir!
Eles viram os shots e pedem a conta. Timóteo não está acostumado com álcool e se embebeda rapidamente. E lembra-se de alguém que conheceu no Carnaval passado. Ela tinha lhe dito para não mandar mensagem, então ele não tinha mandado; mas a pequena angústia do arrependimento seguia bem de vez em quando martelando-lhe a cabeça. Até que, naquela esfiharia, enquanto discursava alcoolizado sobre o estatuto da covardia para Kafta, decide tomar coragem. Ainda tinha o número dela, anotou-o assim que chegou em casa aquele dia. Redige uma mensagem como se fosse mandar para uma grande lista de transmissão de todos os seus contatos, contando do começo d’O Sofista e convidando os primeiros pacientes para aquela curiosíssima aventura experimental.
sofistas paulistas, de david schwartsman
Nascido em 2002, David Schwartsmané pesquisador em economia política, bacharel em filosofia pela USP e em economia pelo Insper. Mora em São Paulo.


