Leia aqui um poema de "sutilezas viscerais", de Felipe Sanna:
FERIADO NO LITORAL
Um sorriso seco desponta em meu rosto,
enquanto dissimulo o desespero
de todos os náufragos afogados em meu peito.
No cigarro aceso.
No disfarce ao falar sobre o tempo,
sob o sol escaldante,
incomodado ao ver comboios invadirem a cidade.
Homens e mulheres kamikazes
agem como crianças órfãs,
recém-libertas de orfanatos esquecidos no tempo.
Este é o nosso mundo.
O que nos escapa tem mais valor,
escorre pelos vãos de grandes mãos molengas,
lentas e podres.
Não há mais nada a perder.
Queimo mais rápido com o vento.
Comporto-me mal por trás dos óculos escuros.
Bundas de silicone balançam
para lá, para cá.
Sim, eu estou em conflito...
Derretendo lentamente.
O andar lisérgico entre guarda-sóis.
O reconhecer-se em outros corpos...
No menino que se joga na areia,
a procurar moedinhas de ouro, como eu fiz naquelas férias de 1993...
Ao longe, barquinhos parecem afundar no horizonte.
Silenciosa abstração no cachimbo de um marujo.
Epifanias e caricaturas...
Nos quiosques,
comemoram absurdos.
Bêbados e seus filhotes
enterram-se na areia.
De herança, um modo peculiar de ver o mundo.
Simbólico, até...
Enterram-se pais e filhos
antes mesmo do fim.
sutilezas viscerais, de felipe sanna
Felipe Sanna é paulistano, pai de Lucas e Bárbara, nasceu em 1984. Graduado em História e pós-graduado em Gestão de Negócios. Autor do livro de contos O pesar de tudo (2021). Teve poemas e contos publicados em revistas de literatura contemporânea, como Ruído Manifesto e Mallarmargens. Foi premiado nos concursos literários Talentos Fenae e Matarazzo. Possui hábitos peculiares, como anotar sonhos antes do café da manhã e ler vários livros simultaneamente.
