Leia aqui um trecho de "tetralogia da imoralidade", de Daniel Perico Graciano:
Sou amaldiçoada. Não, isso não é uma hipérbole, eu sou literalmente amaldiçoada, assim como meu pai, minha irmã e meus irmãos - que já bateram com as dez, vestiram o paletó de madeira, esticaram as canelas, e, com todo respeito, já viraram presunto. Todo mundo que eu conheço de repente morre. E não morrem como a maioria das pessoas, nunca é algo ordinário, não... Nada de infarto, engasgo, AVC, muito menos atropelamento; fazem questão de morrer por causa das piores tragédias que você pode imaginar, parece até uma competição. Tipo, a impressão que dá, é que o destino fica o tempo todo maquinando, arquitetando jeitos espetaculares de levar o pessoal da minha família pra casa do chapéu, sempre das maneiras mais criativas possíveis.
tetralogia da imoralidade, de daniel perico graciano
Daniel Perico Graciano é doutor em Linguística, ensaísta e escritor. Se especializou no campo dos estudos discursivos, cuja perspectiva teórica crítica apresenta reflexos nítidos em sua prosa e poesia. Sua obra se caracteriza pela busca de questionar e desafiar as concepções dominantes de moralidade e valores. Atualmente desenvolve suas pesquisas acadêmicas e trabalha como redator, encontrando espacinhos aqui e ali para sua arte. Publicou, entre outras obras, o poema Partisan (2014), Carnaval (2025) e Arché, além de livros didáticos e acadêmicos.
