Leia aqui um poema de "travessiar: da travessia ao verbo", de Cristina Parreira:
domingos e pepinos
o aviso era afiado e certeiro
feito corte de lâmina a fatiar os pepinos
aos domingos, dizíamos às crianças:
-cuidado! machuca!
obstinadas, não ouviam
queriam testar o amor
testavam também a esperança
de domar a faca e não sofrer o corte
de abafar o choro que acanhado caía
de secá-lo ao modo-de-flor
entre as folhas do Romance de cabeceira
entre o chamado:
-vem, mãe, canta pra mim! não faço mais
nunca mais tomaram a faca
tampouco evitaram o corte, o choro
por vezes, gritaram “vem, mãe”
ainda
aos domingos
estamos a fatiar os pepinos
travessiar: da travessia ao verbo, de cristina parreira
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