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Leia aqui um trecho de "um grito azul", de Geórgia Alves:

 

O poço e a pedra

 

É do tamanho de um punho a pedra que atiraram no fundo do poço e que envenenou a água que abastecia os moradores na Vila Cabula. O poço artesanal era única fonte de água num raio de dois quilômetros de distância. A explosão se pode ouvir na cidade vizinha. A pedra caiu na água como uma maçã feita de chumbo ou cobalto. Como um punho fechado soca do estômago vazio. Fósforo é preso no exato momento em que Lápis Lazuli lhe trazia o café da manhã. É preso, não sem o constrangimento no olhar de seus pares, inclusive os mesmos homens da guarda municipal, Augusto e Afonso, que tão bem o conhecem, e lhe apertam nos punhos as algemas. Fósforo é detido como responsável pelo envenenamento, mas por dever de ofício. Como vigilante do poço deveria responder pela morte de Magdala, que tombou como uma pedra, ela mesma despencou inteira de corpo, espumando pelo canto da boca com um único gole da água. Água que acabava de colher numa jarra de barro. Não havia nada que impedisse Magdala de responder pelos afazeres domésticos deixando jorrar a água, abrindo a torneira da casa. O fato, é que como por uma teimosia de existência, Magdala não se privara de amanhecer o dia buscando água na fonte. Os homens da Vila Cabula, ressequida de sol, não permitiam mais as mulheres carregarem baldes, encaixados os jarros nas suas cinturas. No entanto, Magdala insistia. E este foi o seu destino. O crime de ir buscar água fora dos limites a que as mulheres eram permitidas era gravíssimo. E agora, Magdala ali estava com alguns fios de cabelo saindo do véu escuro.

um grito azul, de geórgia alves

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