Leia aqui um poema de "às de copas", de Beatriz Nogueira:
palavra-oração
o amor sempre em primeiro lugar
graças a deus a gente tem o amor
gravo as palavras de minha mãe num pequeno gravador,
sua voz, os ruídos de fundo,
as risadas das crianças,
o barulho da obra em frente à sua varanda,
o tilintar dos penduricalhos no retrovisor do carro,
o som da seta para esquerda
gravo sua voz cantando
numa língua ancestral
entoando louvores do outro lado do atlântico
toda quarta-feira
àwuré, Xangô, àwuré
você não sabe pedir socorro não?
eu duvido que você não vai saber rezar
quando a coisa pegar fogo
minha mãe me ensinou a rezar:
os joelhos na esteira,
com a cabeça apoiada nas mãos
rezamos para o amor
rezamos para a boa sorte
rezamos para o tempo
ventania nos céus cor de chumbo,
correnteza e cascata
nos rios de águas turvas
e na água clara das taças de cristal
a voz de minha mãe ressoa
firme e elevada
gravo sua voz como quem teme perdê-la um dia
gravo sua voz para celebrá-la
celebro e guardo seu amor em forma de verbo
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